terça-feira, 21 de julho de 2026

Do Western Terms Really Convey chinese language notions? – Final 名可譯,義可傳乎?——論「Kung Fu School」與「Martial Arts」的文化落差(下)

 

by

Master Keith Markus
(Disciple of Senior Master Thiago Pereira)


Parte 4 Por que "escola" não descreve a transmissão real

Part 4 — Why "school" does not describe the actual transmission

Confúcio já rompia, em sua época, com a tutoria padronizada, e ensinava sem classificar as pessoas, ajustando cada resposta ao discípulo que tinha à frente. Por isso dava conselhos opostos a duas pessoas que faziam a mesma

pergunta. O Ving Tsun herda essa lógica, e nomeia dois elementos centrais em chinês porque nenhuma palavra portuguesa os traduz sem perda. Chuen () geralmente vertido como "transmissão",não é repassar informação, mas

formar em outra pessoa a capacidade real de sustentar o mesmo critério sob pressão. É, portanto, a transmissão viva e capacitadora, sendo Chuen Sing (傳承) a transmissão capacitadora que prevê continuidade, a transmissão do legado. E Jing Tung (正統), "linhagem ortodoxa", não se atesta através de algum selo, diploma ou grade de graduação, pois é a continuidade viva de um critério, reconhecível pelos efeitos que produz, e não pelos certificados que emite. Onde se usa o termo "escola" com currículo fechado e avaliações padronizadas, existe um ecossistema composto por linguagem própria, provér­bios, ritos, genealogia, modo de correção, método de convivência, ambiente de prática e o sistema. Tudo isso atua pessoa a pessoa, geração a geração, e constitui o que o Grão-Mestre Leo Imamura se refere como “Campo Transmissivo Histórico”, em seu livro “Ving Tsun: a cultura marcial chinesa para vencer as baralhas que ninguém vê (2026).


Even in his time, Confucius broke away from standardized instruction; he taught without categorizing people, tailoring each response to the specific disciple before him. Consequently, he would offer opposing advice to two individuals who asked the same question. Ving Tsun inherits this logic and uses Chinese terms for two central elements, as no Portuguese word translates them without loss of meaning. Chuen ()—usually translated as "transmission"—is not merely about passing on information; rather, it involves cultivating in another person the genuine ability to uphold the same standard under pressure. It is, therefore, a living, empowering transmission; Chuen Sing (傳承) refers to this empowering transmission that ensures continuity—the transmission of a legacy. Meanwhile, Jing Tung (正統), or "orthodox lineage," is not validated by a seal, diploma, or ranking system; instead, it is the living continuity of a standard, recognized by the effects it produces rather than the certificates it issues. Where the term "school" implies a fixed curriculum and standardized assessments, here there exists an ecosystem comprising a unique language, proverbs, rituals, genealogy, correction methods, a way of interacting, a practice environment, and the system itself. All of this operates from person to person and generation to generation, constituting what Grandmaster Leo Imamura calls the "Historical Transmissive Field" in his book Ving Tsun: A Cultura Marcial Chinesa para Vencer as Batalhas que Ninguém Vê (2026).


Parte 5 – Revisitando a parte 2: mas onde ocorre a transmissão de um sistema de Kung Fu?

Part 5 – Revisiting Part 2: Where does the transmission of a Kung Fu system actually take place?

 

Prática do Domínio Mui Fa Jong
(Mui Fa Jong Practice)


Já examinamos a imprecisão e até mesmo a inadequação da palavra “escola” para nos referirmos ao local onde ocorre o Chuen (), no sentido de transmissão viva e capacitadora, então examinaremos agora o termo Mo gun 武館.

 Se tomarmos apenas o caracter , teremos como tradução “local, pavilhão, centro, estabelecimento, edifício, recinto”, ou até mesmo “local para passar tempo dentro de um jardim”, podemos perceber que ele não carrega, em si, nenhuma conotação marcial. Porém, quando escrevemos juntamos o caracter Mo (), que tem significado preciso no sentido marcial, alcançamos tanto o termo Mo gun 武館  em seu sentido estrito, de “local onde se pratica arte marcial”, como o seu sentido mais amplo, como “local de salvaguarda de um sistema de Kung Fu, que inclui aspectos técnico, de etiqueta, de linhagem e formação de caráter, que é, ao mesmo tempo, espaço físico e comunidade de aprendizado.

Vale ressaltar, para evitar a confusão terminológica, que não se deve confundir o Jing Tung (正統), linhagem ortodoxa, com Jing Tong (正堂), que é o salão principal no nosso caso, de um Mo Gun (武館). Um espaço cerimonial de respeito aos ancestrais.

Neste sentido, enquanto Gun () refere-se a um espaço com uma função específica, um local onde algo é praticado ou oferecido, e tong () refere-se, tradicionalmente, como o salão principal de uma casa, templo, ou complexo familiar, ou de um  Mo Gun (武館).

 

We have already examined the imprecision—and even the inadequacy—of the word "school" when referring to the place where Chuen ()—in the sense of a living, empowering transmission—occurs; now, let us examine the term Mo gun (武館).

 If we consider the character Gun () in isolation—translating it as "place," "pavilion," "center," "establishment," "building," "enclosure," or even a "garden pavilion for leisure"—we see that it carries no inherent martial connotation. However, when we combine it with the character Mo ()—which holds a precise martial meaning—we arrive at the term Mo gun (武館). This term encompasses both the strict sense of a "place where martial arts are practiced" and a broader meaning: a site that safeguards a Kung Fu system—incorporating technical aspects, etiquette, lineage, and character building—serving simultaneously as a physical space and a learning community.

To avoid terminological confusion, it is worth noting that one should not mistake Jing Tung (正統)—meaning "orthodox lineage"—for Jing Tong (正堂). In the context of a Mo gun (武館), Jing Tong refers to the main hall—a ceremonial space dedicated to paying respect to ancestors.

In this sense, while Gun () refers to a space with a specific function—a location where an activity is practiced or a service offered—Tong () traditionally refers to the main hall of a house, temple, family complex, or Mo gun (武館).


Parte 6 - Conclusão

Part 6 - Conclusion

Chinese character for "war"


Se olharmos para o percurso que fizemos — do Kung Fu ' (功夫) amplo às acrobacias cinematográficas, da técnica decorada ao dispositivo corporal incorporado, do nome como rótulo ao nome como gesto e dispositivo, da "escola" com currículo fechado ao Chuen () que forma capacidade, do diploma ao Jing Tung (正統) que só se prova pelo efeito, e finalmente, de um recinto genérico ao Mo Gun (武館) que abriga também um Jing Tong (正堂), fica claro que o problema nunca foi apenas de tradução. Foi de arquitetura conceitual.

 O português (e o inglês, no caso de "martial arts" e "school") oferece um vocabulário pensado para instituições que ensinam conteúdo replicável a qualquer aluno, de forma padronizada e mensurável. A tradição chinesa, ao contrário, constrói palavras para nomear um processo de transformação pessoal que só existe na relação viva entre quem já sustenta um critério e quem ainda está aprendendo a sustentá-lo. Não é que "escola", "aula" ou "arte marcial" estejam simplesmente erradas — é que elas descrevem outra coisa, um modelo que pressupõe padronização onde a tradição chinesa pressupõe individualização; que pressupõe conteúdo onde ela pressupõe incorporação; que pressupõe certificação onde ela pressupõe a continuidade viva.

 

Por isso, talvez a pergunta mais honesta não seja "qual é a tradução correta de Kung Fu, Mo Gun ou Chuen?", mas "o que perdemos, e o que corremos o risco de nunca aprender (incorporar), quando insistimos em traduzir tudo isso antes de tentar compreendê-lo em seus próprios termos?" Considerar a análise dos termos em chinês, com toda a sua carga de significados, não é preciosismo. É a condição mínima para que o próprio fenômeno que queremos nomear não se perca na tradução.

 

 

 

If we look at the path we have traveled—from the broad concept of Kung Fu (功夫) to cinematic acrobatics; from memorized technique to an embodied physical mechanism; from a name as a mere label to a name as a gesture and a mechanism; from a "school" with a fixed curriculum to Chuen (), which cultivates capacity; from a diploma to Jing Tung (正統), proven only by its effect; and finally, from a generic space to a Mo Gun (武館) that also houses a Jing Tong (正堂)—it becomes clear that the issue was never merely one of translation. It was a matter of conceptual architecture.

 Portuguese (like English, in the case of "martial arts" and "school") offers a vocabulary designed for institutions that teach content replicable for any student in a standardized, measurable way. Chinese tradition, conversely, constructs words to name a process of personal transformation that exists only within the living relationship between someone who already upholds a standard and someone who is still learning to uphold it. It is not that terms like "school," "class," or "martial art" are simply wrong; rather, they describe something else—a model that presupposes standardization where Chinese tradition presupposes individualization; that presupposes content where tradition presupposes embodiment; that presupposes certification where tradition presupposes living continuity.

 Therefore, perhaps the most honest question is not "What is the correct translation of Kung Fu, Mo Gun, or Chuen?" but rather, "What do we lose—and what do we risk never learning (or embodying)—when we insist on translating all of this before attempting to understand it on its own terms?" Considering the analysis of these Chinese terms, with their full weight of meaning, is not mere pedantry. It is the minimum requirement to ensure that the very phenomenon we wish to name is not lost in translation.



Mestre Keith Markus (梅龍辛 Moy Lung San) – Discípulo do Mestre-Sênior Thiago Pereira

Master Keith Markus (Moy Lung San) – Disciple of Senior Master Thiago Pereira