Foi com surpresa que recebi o convite para compor o Board deste ano do Instituto Moy Yat em São Paulo. No entanto, preciso dizer que esse convite foi prontamente acolhido.
Graças à confiança, paciência e indicação do Grão-Mestre Leo Imamura, tenho a oportunidade de realizar mais esse sonho ao vivenciar essa experiência no Instituto Moy Yat, atuando como uma espécie de “faz-tudo”, ainda que meu cargo seja o de secretário-geral.
Pude me ver cuidando das tarefas com as próprias mãos, visualizar o resultado antes mesmo de sua concretização e agir não por obrigação, mas por acreditar genuinamente no projeto. Tudo isso tem sido profundamente gratificante aos 42 anos. Cada demanda que chegava até mim, cada prazo, representava mais uma oportunidade de aprender e de me superar. Com o tempo, você acaba conhecendo cada pequeno espaço do local e descobrindo maneiras mais inteligentes de realizar uma mesma tarefa, mesmo após já tê-la concluído.
Essa porta foi aberta para mim pelo Grão-Mestre Leo Imamura e validada pelo presidente e pelo vice-presidente do Instituto em São Paulo, além do presidente global, o Grão-Mestre William Moy.
Às vezes, o Grão-Mestre Leo Imamura me questionava sobre algo a que eu havia dedicado tempo, como a poda. Era possível ouvi-lo dizer coisas como: “Essa deveria ser a última coisa!” ou “Por que você fez isso agora?”.
Eu tinha, porém, uma estratégia: cuidar de tarefas simples, mas que pudessem trazer a sensação de que a vida estava voltando ao lugar. Queria que a pessoa entrasse no Instituto e sentisse que algo havia mudado para melhor, mesmo sem saber exatamente o quê.
Talvez eu tenha tido apenas sorte, porque, quando sinto que a vida começa a se tornar mais desafiadora, por alguma razão misteriosa, passo a consumir conteúdos com temática de samurai. Foi assim que tomei conhecimento de uma característica de Akira Kurosawa no final do ano passado: em seu processo de direção, ele tratava o cenário não como fundo, mas como parte ativa da narrativa.
Kurosawa utilizava algumas abordagens marcantes. Uma delas era o cenário como extensão do personagem, usando objetos e ambientes para refletir seu estado mental. Outra era a chamada “poluição visual” intencional: ao contrário de diretores que limpam o enquadramento, ele adicionava lama, fumaça, papéis e diversos elementos, fazendo com que seus filmes parecessem registros reais. Além disso, havia o movimento dentro do cenário: mesmo quando o ator estava parado, o ambiente permanecia vivo , com cortinas se movendo, fumaça passando, chuva ou vento atravessando a cena.
Ao refletir sobre isso, percebi que era exatamente essa sensação que eu queria trazer. "Estamos mudando para melhor, mesmo que você não saiba porque você pode sentir". - Eu queria que o Instituto falasse isso para a pessoa.
At times, Grandmaster Leo Imamura would question me about something I had devoted time to, such as pruning. It was possible to hear him say things like: “That should be the last thing!” or “Why did you do that now?”
However, I had a strategy: to take care of simple tasks that could bring a sense that life was returning to the Institute. I wanted anyone entering the Institute to feel that something had changed for the better, even if they could not quite explain what it was.
Perhaps I was simply fortunate, because when I feel that life is becoming more challenging, for some mysterious reason I begin to consume samurai-themed content. It was in this context, at the end of last year, that I came to learn of a characteristic of Akira Kurosawa: in his directing process, he did not treat the set as a background, but as an active part of the narrative.
Akira Kurosawa employed several distinctive approaches. One of them was the set as an extension of the character, using objects and environments to reflect their mental state. Another was the intentional “visual clutter”: unlike directors who clean up the frame, he would add mud, smoke, papers, and various elements, making his films appear as if they were real records of events. Furthermore, there was movement within the set itself: even when the actor remained still, the environment stayed alive, with curtains moving, smoke drifting, and rain or wind passing through the scene.
Reflecting upon this, I realised that this was precisely the sensation I wished to create: “We are changing for the better, even if you do not know why, you can feel it.” I wanted the Institute to communicate this to people, without needing to explain it in words.
Acredito que um dos momentos mais marcantes desse processo tenha sido quando finalizamos a fonte da foto acima. Um ano antes, o Grão-Mestre Leo Imamura compartilhou comigo o termo “緣分” (Yun Fan).
Posteriormente, ouvi uma entrevista do Grão-Mestre Frank Yee no podcast brasileiro “O que sei sobre tigres e dragões”, na qual ele mencionou algo que me chamou muita atenção: “quando você precisa de ajuda, e há Yun Fan , então as pessoas certas aparecem”.
Essa ideia me marcou profundamente. Você podia me ver em Santo André com meu discípulo Daniel, participando das celebrações dos 60 anos da Jornada Kung Fu do Grão-Mestre Marcos Hourneaux, mas sentia um forte impulso de voltar ao Instituto para começar a trabalhar naquele
Iniciei o processo com a ajuda do Daniel e, meses depois, também contei com o apoio do meu aluno Nathan. Já próximo ao início do evento, o aluno do presidente do Instituto, o querido Rafael Ortega, apareceu e ajudou a resolver tudo o que ainda faltava.
Naquele momento em que a luz da fonte finalmente se acendeu, aquilo tudo pareceu ser uma manifestação de “緣分” (Yun Fan).
I believe one of the most remarkable moments of this process was when we completed the fountain shown in the photograph above. A year earlier, Grandmaster Leo Imamura had shared with me the term “緣分” (Yun Fan).
Later, I listened to an interview with Grand Master Frank Yee on the Brazilian podcast “O que sei sobre tigres e dragões”, in which he mentioned something that deeply caught my attention: that when one is in need of help, and there is Yun Fan, the right people will appear.
This idea resonated with me profoundly. You could have seen me in Santo Andre city with my disciple Daniel, taking part in the celebrations of the 60th anniversary of the Kung Fu Journey of Grandmaster Marcos Hourneaux, whilst I felt a strong urge to return to the Institute to begin working on that project.
I began the process with Daniel’s assistance and, months later, was also supported by my student Nathan. Shortly before the start of the event, the student of the Institute’s President, the dear Rafael Ortega, appeared and helped resolve everything that was still outstanding.
In that moment, when the light of the fountain finally turned on, it felt as though all of this was a manifestation of “緣分” (Yun Fan).
Eu havia perguntado ao Grão-Mestre Leo Imamura se poderia envernizar os Geuk Jong, e ele teria dito que não era necessário. Talvez estivesse preocupado com o pouco tempo que tínhamos, mas, ainda assim, decidi envernizá-los.
Aqueles Geuk Jong haviam sido lixados pelos meus discípulos Daniel e Lucas. Daniel sofreu um acidente durante esse processo e precisou ser levado à emergência. Nathan também ajudou, e eu mesmo participei . A grama foi cortada por mim e pelo Ortega.
Quando tudo estava pronto, sentei-me nos degraus do Instituto e fiquei ali, tomando um chá que estava ao meu lado. Foi uma sensação difícil de descrever. Naquele momento, me lembrei do meu avô, Carlos. Ele construiu ( geralmente sozinho ou com apenas um ajudante ) mais de uma dezena de casas em Rocha Miranda, de onde eu venho. Hoje, ao atravessar Rocha Miranda, é como se houvesse um pouco dele em cada uma daquelas casas. E ali, naquele Instituto, havia um pouco de nós também.
Acho que isso também foi “緣分” (Yun Fan), porque eu não teria conseguido fazer tudo sozinho. E tudo se tornou ainda mais especial ao perceber que os grandes destaques desse processo foram Nathan de Assis e Rafael Ortega ,nomes que, quando a empreitada começou, ninguém imaginaria. Isso realmente parece incrível.
I had asked Grandmaster Leo Imamura whether I could varnish the Geuk Jong, and he reportedly said that it was not necessary. Perhaps he was concerned about the limited time we had, but I nevertheless decided to varnish them.
Those Geuk Jong had been sanded by my disciples Daniel and Lucas. Daniel suffered an accident during this process and had to be taken to the emergency room. Nathan also helped, and I myself took part in the work. The grass was cut by Ortega and myself.
When everything was ready, I sat on the steps of the Institute and remained there, drinking a tea that was beside me. It was a feeling difficult to describe. At that moment, I was reminded of my grandfather, Carlos. He built, generally on his own or with just one assistant, more than a dozen houses in Rocha Miranda, where I come from. Today, when I walk through Rocha Miranda, it feels as though there is a part of him in each of those houses. And there, at the Institute, there was also something of us too in that very moment.
I believe this was also “緣分” (Yun Fan), because I would not have been able to do everything alone. The experience became even more meaningful when I realised that the main highlights of this process were Nathan de Assis and Rafael Ortega , names that, when the undertaking began, no one would have imagined. It truly feels remarkable.
No dia da celebração do aniversário de 63 anos do Grão-Mestre Leo Imamura, o novo Board foi nomeado. No entanto, eu já vinha trilhando esse processo muito antes, entre acertos e erros, e sempre me mantive profundamente satisfeito com essa oportunidade.
Acredito firmemente que não exista posição melhor dentro de uma Família Kung Fu ou de um Instituto como este do que a posição de “faz-tudo”. Primeiro porque, de fato, ninguém é capaz de fazer tudo sozinho e eu também não faço tudo. Mas, ao mesmo tempo, essa posição permite que você vá se envolvendo com o processo de forma gradual, até que, pouco a pouco, esteja participando de cada detalhe: decisões, desafios, prazos apertados e missões aparentemente impossíveis.
Nesse caminho, aprende-se em uma velocidade que nem sempre conseguimos processar, mas cujos efeitos acabam se manifestando em nós e em toda a nossa Família Kung Fu.
Fui nomeado como secretário-geral, mas sinto que eu e o Instituto já começamos uma história muito maior do que aquilo que essa função, por si só, é capaz de contemplar.
Eu nunca desisti.








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