Por mais de uma vez, pude ouvir do meu mentor, o Grão-Mestre Leo Imamura (foto acima), uma frase que contradiz o senso comum no Ocidente. Ele diz algo como: "Quando o Mestre está pronto, o discípulo aparece". Diferente do que se acredita, ele afirma que muitos mentores desejam um discípulo fora de série, assim como talvez muitos pais desejem um filho fora de série, uma espécie de "chosen one".
Porém, o Grão-Mestre questiona se o Mestre estaria realmente preparado para um discípulo tão extraordinário.
Um ponto importante que compreendi a partir dos estudos de Genealogia promovidos pelo Si Gung (師公 / Shī Gōng 师公) Leo Imamura refere-se a um momento da nossa Linhagem em que o Patriarca Leung Jaan (梁贊 / Liáng Zàn 梁赞) transmite o Sistema Ving Tsun para Fung Wa (馮華 / Féng Huá 冯华) e Chan Wa Sun (陳華順 / Chén Huáshùn 陈华顺), também conhecido como Jaau Chin Wa (找錢華 / Zhǎo Qiánhuá 找钱华), que futuramente viria a se tornar Si Fu (師父 / Shī Fu 师父) do lendário Patriarca Ip Man (葉問 / Yè Wèn 叶问).
Nesse trecho da nossa genealogia, a inscrição sigilar utiliza dois caracteres: Fan Chuen (分傳 / Fēn Chuán 分传). Esse termo pode ser compreendido como uma transmissão individualizada de um legado, na qual cada legatário percorre o seu próprio processo.
Porém, mesmo com uma transmissão individualizada, ainda permanece uma questão:
Como adaptar esse processo a uma determinada pessoa?
Muitas vezes exigimos ou esperamos de um legatário um comportamento ou uma atitude para os quais ele ainda não alcançou maturidade suficiente. Por essa razão, se o Fan Chuen (分傳 / Fēn Chuán 分传) orienta a não pasteurizar um processo de transmissão, o Fong Faat (方法 / Fāngfǎ 方法) corresponde à metodologia desenvolvida para conduzir o processo de transmissão e aprendizagem a partir da noção de Fan Chuen (分傳 / Fēn Chuán 分传).
3 razões para as dificuldades na sucessão e no legado:
Three Reasons Why Succession and Legacy Are So Difficult
Uma vez, o Si Gung (師公 / Shī Gōng 师公) enviou uma fotografia na qual eu observava o meu Si Fu (師父 / Shī Fu 师父) executar uma movimentação no Boneco de Madeira. Na imagem, eu aparecia com as mãos nos bolsos. Ele perguntou: "Você acredita que essa seja a postura adequada para uma experiência marcial?". A fotografia estava publicada no meu Instagram. Imediatamente a removi. A imagem era muito bonita, mas, do ponto de vista conceitual, registrava a minha ignorância.
Tempos depois, caminhávamos juntos com os pais dele pelo Shopping Iguatemi, em São Paulo. Naquela tarde, por diversas vezes, ele golpeava a minha barriga sempre que eu colocava as mãos nos bolsos. O impacto era suficiente para causar algum desconforto. No entanto, a forma como conduziu esse processo comigo não foi a mesma utilizada com o meu discípulo Lucas, quase dois anos depois.
Naquela altura, eu já não colocava mais as mãos nos bolsos quando me distraía. Contudo, havia transmitido esse hábito, fruto da falta de atenção, ao meu discípulo. Assim, também podemos fazer nascer nos nossos descendentes aspectos que não são desejáveis.
Durante uma aula, o Si Gung (師公 / Shī Gōng 师公) passou a arremessar sem aviso a caneta Pilot que utilizava para escrever no quadro sempre que fazia uma pausa, para Lucas. Lucas nunca conseguia apanhá-la, pois permanecia com as mãos nos bolsos. Mais tarde, ele concluiu que precisava ser mais rápido. Contudo, ao final do dia, percebeu que a verdadeira questão não era a velocidade, mas simplesmente retirar as mãos dos bolsos.
Recentemente, descia de elevador com o Si Gung (師公 / Shī Gōng 师公) em outro shopping, novamente após um almoço com os pais dele. Durante cerca de três segundos, levei as mãos aos bolsos, mas logo as retirei. Quando levantei o olhar e encontrei os olhos dele, percebi que sorria. Tantos anos depois, a lição continuava, assim como a atenção dele para comigo.
A capacidade de despertar consciência em mim e no meu discípulo por caminhos diferentes é Fong Faat (方法 / Fāngfǎ 方法).
2- O efeito sozinho não basta sem genealogia.
2. Effect Alone Is Not Enough Without Genealogy
"Não temos tempo para isso.", "Você não tem mais tempo para isso!", "É a sua última chance.", "Se vira e resolve!". Essas foram algumas das frases que o Si Gung (師公 / Shī Gōng 师公) (foto acima) dirigiu a mim ao longo dos anos. Todas produziram efeito porque estavam contextualizadas. Não eram fruto de indignação da parte dele, mas lembretes. Ainda assim, talvez nenhuma tenha me marcado tanto quanto: "Se você acha que consegue, então mostra!".
Na convivência com ele, tenho tido a oportunidade de observar a sua conduta em situações que exigem tolerar pressão, manter lucidez, sustentar uma decisão e permanecer estável diante do erro e da correção. Esse processo não acontece porque ele diz o que devo fazer. Trata-se de uma educação por meio da convivência, capaz de educar a medida e o gesto.
Essa convivência, que chamamos de Sam Faat (心法 / Xīnfǎ 心法), ajuda a reconhecer o "demais" e o "de menos" na própria ação e a realizar os ajustes a partir de dentro.
Nas ocasiões em que ele chama a minha atenção, compreendo que isso acontece porque ainda não estou suficientemente comprometido com o gesto. Uma das capacidades que ele mais procurou desenvolver em mim ao longo dos anos foi a de tomar a decisão correta sem depender do mentor. O excesso de respeito fazia com que eu evitasse decidir sem antes consultar e obter a aprovação dele.
Todo o tempo que ele dedicou, e continua dedicando, não para me informar sobre alguma coisa, mas para abrir a própria vida diante de mim, permite que os meus acertos deixem de ser fruto do acaso e passem a refletir uma consistência crescente sob variação.
Talvez a maior dificuldade na transmissão de qualquer legado não esteja em encontrar pessoas talentosas, mas em formar pessoas capazes de dar continuidade a um critério. Essa é uma questão que atravessa não apenas a Linhagem Moy Yat da qual faço parte, mas também as famílias, as empresas, as universidades e todas as organizações que desejam permanecer vivas ao longo das gerações.
Perhaps the greatest challenge in transmitting any legacy does not lie in finding talented people, but in nurturing individuals who are capable of carrying a criterion forward. This is a question that extends far beyond the Moy Yat Lineage, of which I am a part. It concerns families, businesses, universities, and every organisation that seeks to remain alive across generations.
If this reflection has prompted a question, reminded you of a similar experience, or simply offered you a different perspective, I would be delighted to hear from you. Please feel free to write to me.
In many cases, it is precisely a meaningful conversation that marks the true beginning of learning.


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