quarta-feira, 31 de maio de 2023

Breakfast after a year with my Master Julio Camacho

Muitos anos atrás, sentado com meu Mestre Julio Camacho dentro de seu antigo carro ZAFIRA, aguardávamos suas filhas descerem. Estávamos no condomínio Barra Bali na Zona Oeste do Rio, e era um agradável início de tarde. Enquanto assistíamos um senhor varrer o chão em silencio, ele concluiu uma fala sua, me chamando a seguinte reflexão:  “...Thiago, quando duas pessoas se conhecem muito jovens, são tantas as transformações, que é muito raro quando as transformações de ambos coincidem...”

Many years ago, sitting with my Master Julio Camacho inside his old ZAFIRA car, we were waiting for his daughters to get out. We were at the Barra Bali condominium in the West Zone of Rio, and it was a pleasant early afternoon. While we were watching a gentleman sweep the floor in silence, he concluded his speech, calling me the following reflection: “...Thiago, when two people get to know each other very young, there are so many transformations, that it is very rare when the transformations of both coincide...”

Depois de muito tempo poderia estar novamente com meu Mestre Julio Camacho e sua esposa, a Sra Marcia Camacho. Porém, não seria naquele Sábado de Maio. Eu havia me programado para estar com Si Fu em momentos mais reservados desta vez, fosse durante sua entrevista no meu PODCAST “Vida Kung Fu”[E por conseguinte, nos desdobramentos desta] ou em sua visita ao Núcleo Méier. E foi graças a um divertido mal entendido, que decidi ir ao seu encontro. Se tratava de um café da manhã nas dependências do condomínio do Mestre Leonardo Reis, meu “Si Hing”, com outros membros seniores da Família Moy Jo Lei Ou. Preferi chegar mais cedo, para ter a oportunidade de ler um livro que ganhei de presente do meu irmão Kung Fu Fabiano Silva sobre “Karate”. Como sei que a ambiência do condomínio é muito agradável pela manhã, já tinha tudo planejado! Porém, ao estacionar o carro, junto comigo estacionou também o Rafael Romanizio, um dos discipulandos que faria “Baai Si” naquela manhã. Trocamos algumas palavras e caminhamos juntos até um outro local, onde seria a Cerimonia. Eu não sabia que o pessoal já estaria por lá, então enquanto o Rafael falava, me peguei refletindo sobre essa estranha sensação de “não fazer parte da organização”.  Participei da organização de muitos eventos, desde 2006 quando tive uma conversa com o Mestre Felipe Soares, meu querido “Si Suk”, que mudou para sempre a minha visão sobre a importância de participar das coisas. Porém, agora em 2023, já com minha Família Kung Fu, havia chegado a hora de promover isso a uma próxima geração, sem deixar de me disponibilizar para minha própria Família, quando requisitado. 

After a long time, I could be with my Master Julio Camacho and his wife, Mrs. Marcia Camacho, again. However, it would not be that Saturday of May. I had scheduled myself to be with Si Fu at more private moments this time, whether during his interview on my PODCAST “Vida Kung Fu” [And therefore, in its aftermath] or on his visit to the MYVT Méier School. And it was thanks to an amusing misunderstanding that I decided to go and meet him. It was breakfast in the condominium of Master Leonardo Reis, my “Si Hing”, with other senior members of the Moy Jo Lei Ou Family. I preferred to arrive earlier, to have the opportunity to read a book that I got as a gift from my Kung Fu brother Fabiano Silva about “Karate”. As I know that the ambience of the condominium is very pleasant in the morning, I had everything planned! However, when parking the car, Rafael Romanizio, one of the new disciples who would perform “Baai Si” that morning, also parked with me. We exchanged a few words and walked together to another location, where the ceremony would take place. I didn't know that the staff would already be there, so while Rafael was speaking, I found myself reflecting on this strange feeling of “not being part of the organization of the ceremony”. I participated in the organization of many events, since 2006 when I had a conversation with Master Felipe Soares, my dear “Si Suk”, who forever changed my view on the importance of participating in Kung Fu Family moments beyond practice. However, now in 2023, already with my Kung Fu Family, the time had come to promote this to the next generation, without ceasing to make myself available to my own Family, when requested.

Depois de um tempo conversando com o Si Hing Leonardo e o Thiago Silva, caminhamos em direção ao local que seria o café da manhã. Chegando lá apenas eu e Thiago, percebemos que o Si Fu, Si Mo e Roberto Viana[que havia buscado ambos na residência da Sra Vera Camacho, a quem chamamos carinhosamente de “Si Taai”], já estavam lá. Si Fu como sempre estava muito bem humorado, e elogiou a maneira que estávamos vestidos. A maneira bem-humorada que o Si Fu leva a vida, para mim é sempre desconcertante. Certa vez ele me disse que “um bom discípulo aprende mesmo quando o Si Fu não tinha a intenção de passar nada”, e acho que em momentos assim eu posso aprender um pouco. Meu Si Hing Leonardo sempre implica comigo quando me encontra pela manhã, devido a eu estar sempre sério. De fato, por vezes estou com o pensamento no desafio seguinte, no problema seguinte, etc... E isso me faz ficar mais sério. Antes eu achava que eu não era bem humorado, depois eu percebi que de fato não sou. Então ver Si Fu curtindo o momento, me traz a reflexão da necessidade de praticar mais o “Siu Nim Tau”. Afinal, você pode estar sério, mas com a mente no presente.

After talking for a while with Si Hing Leonardo and Thiago Silva, we walked towards the breakfast spot. Arriving there, just Thiago and I, we realized that Si Fu, Si Mo and Roberto Viana [who had picked them up at Mrs Vera Camacho's residence, whom we affectionately call "Si Taai"], were already there. Si Fu, as always, was in a very good mood, and praised the way we were dressed. The good-mood way that Si Fu leads life is always disconcerting for me. He once told me that "a good disciple learns even when Si Fu didn't intend to pass anything on", and I think that in moments like this I can learn a little. My Si Hing Leonardo always teases me when he meets me in the morning, because I'm always serious. In fact, sometimes I'm thinking about the next challenge, the next problem, etc... And that makes me more serious. Before I thought I wasn't so serious, then I realized that in fact I'm . So, seeing Si Fu enjoying the moment brings me a reflection on the need to practice more “Siu Nim Tau” . After all, you can be serious, but with your mind in the present.
[De pé da esq para a dir. - Matheus, Rangel e Romanizio]
[Standing from left to right. - Matheus, Rangel and Romanizio]

A rigor, Cerimonias de discipulado não contam com “Testemunhas Honoráveis”, mas lá estava eu sentado ao lado do meu Si Hing Leonardo. Si Fu havia me dado a oportunidade de fazer uma palestra de abertura sobre o tema “Baai Si”, de maneira com que eu pudesse me fazer mais inserido. Porém, sentado ali como um espectador num lugar mais privilegiado, fiquei muito encantado com a disposição dos novos discípulos. 
Sabe, tem estado na moda nos últimos anos alguém falar para você “gratidão”. Isso nunca fez muito sentido, pois é uma palavra em um tempo verbal desconectado. O Alexander Rangel por outro lado, é alguém que expressa a gratidão em cada ação sua e em cada interação. O Rangel trata você com um carinho tão grande, que as vezes ele me abraça e eu fico meio congelado dentro do abraço pensando - “Por que ele está tão agradecido?”- As atitudes do Rangel me mobilizam a fazer melhor, afinal a gratidão que essa pessoa expressa, deveria ser honrada. 
O Romanizio é alguém que eu não conheço muito, mas fiquei muito admirado ao escutar suas palavras durante a Cerimonia, mostrando que esperou até o momento em que julgasse válido dar esse passo tão importante dentro da jornada de um praticante. 
Por fim, o Matheus Azevedo também me impactou positivamente com o seu amadurecimento em tão pouco tempo. Não foi muito por aquilo que ele disse, mas pelo seu jeito talvez. 

Strictly speaking, discipleship ceremonies do not have "Honorable Witnesses", but there I was sitting next to my Si Hing Leonardo. Si Fu had given me the opportunity to give an opening lecture on the theme "Baai Si", so that I could become more involved. However, sitting there as a spectator in a more privileged place, I was very delighted with the disposition of the new disciples.
You know, it's been very common these past few years for someone to say "gratitude" to you. This never made much sense as it is a word in a disconnected tense. Alexander Rangel on the other hand, is someone who expresses gratitude in his every action and every interaction. Rangel treats you with such affection, that sometimes he hugs me and I freeze in the embrace thinking - "Why is he so grateful?" - Rangel's attitudes mobilize me to do better, after all, the gratitude that person expressed, should be honored.
Romanizio is someone I don't know very well, but I was very surprised to hear his words during the Ceremony, showing that he waited until the moment when he considered it worthwhile to take this very important step in the journey of a practitioner.
Matheus Azevedo also positively impacted me with his maturation in such a short time. It wasn't so much what he said, but the way he looked maybe.

 

Alguns dias depois, conforme previsto, meu Si Fu visitou meu Mo Gun no bairro do Méier[FOTO]. Antes de ter com meus alunos, conversamos por cerca de uma hora. Conheci o Si Fu quando tinha 15 anos de idade, enquanto ele tinha 29 anos de idade. Após mais de duas décadas de convivência intensa, algumas transformações passaram a não mais coincidir. Porém, eu estava certo quando planejei esse contato mais reservado em meio a tantos compromissos por ocasião de sua visita ao Brasil. 
Si Fu me deixou muito tranquilo para seguir o caminho com minha Família que acredito ser o mais apropriado, nesse caso me mantendo vinculado a  “Moy Yat Ving Tsun Martial Intelligence” e não ao “Insituto Julio Camacho”.  Em termos familiares, seguimos juntos, mas levei a ele minha preocupação em relação ao que meus pares entenderiam sobre minha decisão institucional. A sensação de virar para o lado esquerdo quando ele e todos os outros discípulos estão virando a direita, nunca foi fácil. Porém, sobre isso ele comentou: “Eu estou dizendo, Thiago: Não tem problema algum. Apenas me pergunto, se você será capaz de fazer o mesmo por um discípulo seu no futuro”.
Eu vivo bem sendo “sério” enquanto o Si Fu vive bem “com um incrível alto astral”. E que bom que eu tenho um Si Fu que respeita essas diferenças de escolha de como seguir a vida. Só me resta terminar dizendo “Gratidão”[risos].

A few days later, as expected, my Si Fu visited my Mo Gun in Méier wild neighborhood [PHOTO]. Before having with my students, we talked for about an hour. I met Si Fu  for the very first time when I was 15 years old, while he was 29 years old. After more than two decades of intense coexistence, some transformations no longer coincide. However, I was right when I planned this more reserved contact in the midst of so many commitments on the occasion of his visit to Brazil.
Si Fu left me very calm to follow the path with my Family that I believe to be the most appropriate, in this case remaining linked to "Moy Yat Ving Tsun Martial Intelligence" and not to the "Julio Camacho Institute". In family terms, we follow together, but I brought him my concern about what my peers would understand about my institutional decision. The feeling of turning left when he and all the other disciples are turning right was never easy. However, about this he commented: “I'm saying, Thiago: There's no problem. I just wonder, will you be able to do the same for a disciple of yours in the future?
I live well being "serious" while Si Fu lives well "with an incredible high spirits". And it's good that I have a Si Fu who respects these differences in choosing how to go about life. I can only end by saying “Gratitude” [laughs].

A Disciple of Master Julio Camacho
Thiago Pereira "Moy Fat Lei"
moyfatlei.myvt@gmail.com.

quarta-feira, 10 de maio de 2023

THE FIRST TIME I MET GM WILLIAM MOY

 

Naquele ano, eu completava vinte anos ininterruptos como membro da Linhagem Moy Yat. Ao longo das décadas, principalmente de meu Si Fu, ouvi inúmeras passagens sobre o Si Taai Gung Moy Yat. Algumas dessas histórias ele mesmo estava presente, enquanto em outras, eram histórias que ele tinha escutado do Si Gung. E quando o Si Gung visitava o Rio, ou eu ia até São Paulo, era comum ouvir ele citar seu próprio Si Fu Moy Yat. 
Todas essas histórias me encantavam muito, pois elas sempre terminavam com alguma fala, ação ou gesto do Patriarca, que demonstrava toda a sua arte e perspicácia. Porém, eu nunca tinha escutado histórias contadas pelo seu próprio filho, meu Si Baak Gung William Moy [FOTO ACIMA].
Em muitas das fotos que tive contato, Si Baak Gung sempre pareceu muito sério. Foi apenas em algum dos aniversários do Si Gung, que ele apareceu em um vídeo de homenagem, e para minha surpresa, ele fazia uma brincadeira bem divertida na filmagem. Todos riram, e aquilo me fez pensar que ele não fosse tão sério assim. 

That year, I completed twenty uninterrupted years as a member of the Moy Yat Lineage. Over the decades, mainly from my Si Fu, I heard countless passages about Si Taai Gung Moy Yat. Some of these stories he himself was present, while in others, they were stories he had heard from Si Gung. And when Si Gung visited Rio, or I went to São Paulo, it was common to hear him quoting his own Si Fu Moy Yat.
All these stories delighted me a lot, as they always ended with some speech, action or gesture by the Patriarch, which demonstrated all his art and perspicacity. However, I had never heard stories told by his own son, my Si Baak Gung William Moy [PHOTO ABOVE].
In many of the photos I had contact with, Si Baak Gung William always looked very serious. It was only on one of Si Gung's birthdays, that he appeared in a tribute video, and to my surprise, he made a very funny joke in the footage. Everyone laughed, and that made me think he was cool.

Durante um período de dois anos, a filha mais velha do meu Si Fu que se chama Jade [FOTO a dir], decidiu praticar comigo no Núcleo Méier, e isso fez com que nos aproximássemos. A Jade é minha irmã Kung Fu mais nova, mas também é filha do Si Fu. Então por várias vezes, para algo que eu chamaria a atenção de qualquer outro irmão Kung Fu, não sabia o que fazer com relação a Jade. Certa vez eu decidi ligar para o Si Fu, pois não estava conseguindo perceber o que fazer. Eu havia estado com a Jade na Quarta, que era o dia da semana que ela estava no Méier, mas lembro bem de ligar para ele num final de tarde de Sábado, de dentro do meu carro. - “Use seu Kung Fu”- Ele teria dito.
Em outros momentos, alguns de meus discípulos que hoje tem mais de vinte anos, eram adolescentes como a Jade, e alguns ficaram espantados ao saberem quem ela era - “Caramba! Ela é filha do Si Fu?”- Lembro do Alexandre, principalmente falando isso [Risos].
Independente de não saber o que fazer muitas das vezes, sempre tentei tratar tanto a Jade quanto a Julinha[foto a esq] com muito carinho, em função a toda a dedicação do pai delas comigo. Sendo que em muitas dessas oportunidades, ele deixava de estar com elas para estar comigo, e claro! O mesmo para com meus irmãos Kung Fu.

During a period of two years, my Si Fu's eldest daughter, who is called Jade [PHOTO at right], decided to practice with me at MYVT Meier School, and that brought us closer together. Jade is my youngest Kung Fu sister, but she is also Si Fu's daughter. So several times, for something that I would bring to the attention of any other Kung Fu brother, I didn't know what to do about Jade. Once I decided to call Si Fu, because I couldn't figure out what to do. I had been with Jade on Wednesday, which was the day of the week she was in Méier wild neighborhood with me, but I well remember calling him one late Saturday afternoon, from inside my car. - "Use your Kung Fu" - He would have said in response.
At other times, some of my disciples who are now over twenty years old were teenagers like Jade at the time, and some were amazed to learn who she was - “Wow! Is she Si Fu's daughter?”- I remember Alexandre, mainly saying that [Laughs].
Regardless of not knowing what to do many times, I always tried to treat both Jade and Julinha [above photo in the left] with great affection, due to all their father's dedication to me. Being that in many of these opportunities, he stopped being with them to be with me, of course, The same for my Kung Fu brothers.

Então por ocasião da inauguração do Instituto Moy Yat em São Paulo, finalmente pude conhecer o Si Baak Gung William[FOTO]. Estava agendada uma palestra e ele chegou direto do aeroporto, ele segurava esses papéis que o ajudaram a contar um pouco da sua história, da história de seu pai e da história dos dois. Ao final, ganhei o roteiro da apresentação de presente[FOTO ACIMA], muito graças ao meu Si Gung. 
Me tocou muito ouvir dele suas histórias na Família Kung Fu, e de todo o desafio para entender a relação com seu pai que também era seu Si Fu. Me marcou muito em determinada história, a coragem do Si Taai Gung Moy Yat ao se dirigir a ele, mostrando que não deixaria de ser seu Si Fu, para ser apenas pai naquele contexto. Com isso, percebi o quão difícil parece ser para “o filho do Si Fu”, dentro do Círculo Marcial. Porém, o sentimento dele de satisfação ao contar todas essas histórias, mostraram sua gratidão por tudo o que viveu. 
Também pude ver que o Si Baak Gung não é muito fechado, na verdade ele parece estar sempre sorrindo e disponível para atender com muito carinho, todos que se aproximam. 
Como ontem foi o aniversário dele, decidi contar esses fragmentos de lembranças.

Then, on the occasion of the inauguration of the Moy Yat Institute in São Paulo, I finally got to meet Si Baak Gung William [PHOTO]. A lecture was scheduled and he arrived straight from the airport, he was holding these papers that helped him tell a little of his story, his father's story and the story of the two of them. In the end, I got the presentation script as a gift [PHOTO ABOVE], much thanks to my Si Gung.
It touched me a lot to hear his stories in the Kung Fu Family from him, and the whole challenge to understand the relationship with his father who was also his Si Fu. It struck me a lot in a certain story, the courage of Si Taai Gung Moy Yat when addressing him, showing that he would not stop being his Si Fu, to just be his father in that context. With that, I realized how difficult it seems to be "Si Fu's son", within the Martial Circle. However, his feeling of satisfaction when telling all these stories, showed his gratitude for everything he experienced.
I could also see that Si Baak Gung is really cool, in fact he seems to be always smiling and available to talk with great affection, everyone who approaches.
Since yesterday was his birthday, I decided to tell these fragments of memories.


A Disciple of Master Julio Camacho
Thiago Pereira "Moy Fat Lei"
moyfatlei.myvt@gmail.com.


segunda-feira, 8 de maio de 2023

YOU SHOULD NOT PLAY KUNG FU

[Com Si Gung e Si Baak Gung William]
[With Si Gung and Si Baak Gung William]

Esse é um artigo que escrevo enquanto ouço uma das minhas canções favoritas chamada “Roll with the changes” do REO Speedwagon. É que aconteceram muitas mudanças nos últimos meses em minha carreira, e essa é uma canção que tem me acompanhado com mais frequência em meus momentos de reflexão.
Finalizamos na última semana mais um instrumento do Programa Moy Yat Ving Tsun de Inteligencia Marcial que era o Estudo da Genealogia da Linhagem Moy Yat de Nível Básico. Participei junto de três dos meus alunos, e todo o processo foi conduzido pelo Si Gung. 
Quando comecei a inserir meus alunos nesses estudos, estava um pouco receoso. Não conseguia compreender se era adequado estar nesses seminários junto dos meus alunos. Porém, foi perguntado ao Mestre Gabriel de Brasília, se ele achava que essa configuração afetou ou afetava sua relação com seu Si Fu, tendo em vista que ambos estão sempre presentes. O Mestre Gabriel foi muito assertivo ao dizer que depois de tudo o que vivera com seu Si Fu, não seria a participação com ele que enfraqueceria sua liderança. Foi a partir desta fala, que tomei consciência, de que o maior exemplo era deixar meus alunos acompanharem ao vivo ao longo das semanas, minha busca contínua por um melhor entendimento sobre a transmissão do Sistema, sem medo de minhas perguntas parecerem básicas ou de ficar claro que existe uma abordagem mais sofisticada destes e outros instrumentos e que em algum momento, “ficamos para trás”.

This is an article I write while listening to one of my favorite songs called “Roll with the changes” by REO Speedwagon. It's just that a lot of changes have happened in the last few months of my career, and this is a song that has accompanied me more often in my moments of reflection.
Last week we finalized another instrument of the Moy Yat Ving Tsun Martial Intelligence Program which was the Basic Level Moy Yat Genealogy Study. I participated with three of my students, and the whole process was conducted by Si Gung.
When I started to include my students in these studies, I was a little apprehensive. I couldn't understand if it was appropriate to be in these seminars with my students. However, Master Gabriel from Brasilia was asked if he thought that this configuration affected his relationship with his Si Fu, considering that both are always present in this kind of meeting. Master Gabriel was very assertive when he said that after everything he had lived with his Si Fu, it would not be the participation with him that would weaken his leadership. It was from this speech that I became aware that the greatest example was letting my students follow live over the weeks, my continuous search for a better understanding of the transmission of the System, without fear of my questions seeming basic or of getting it is clear that there is a more sophisticated approach to these and other instruments and that at some point, “we are left behind”.

[Brasilia, 2023]


Porém, foi no último Encontro sobre o Nível 2 do Programa Ving Tsun Experience, que tive uma tomada de consciência maior ainda sobre algo que de fato, já me era claro... 
Si Gung fez uma série de observações sobre o Domínio “Cham Kiu”e suas nuances, para que pudéssemos entender melhor sobre como trabalhar no Nível 2. Eu não podia acreditar no que estava ouvindo desde o início daquela noite... Fiquei muito tocado pelo nível de profundidade nas colocações por parte do Si Gung. Ele demonstrava um profundo conhecimento, em nunca desviar do assunto. Então você que está ali até altas horas da noite, se sente prestigiado, pois as referencias sempre se afunilam para a intenção inicial. Com isso, três dias depois enquanto observava dois discípulos praticarem com o bastão, fiz um comentário sobre um assunto paralelo, mas imediatamente vi que havia sido improcedente. Por eu ser o Si Fu, existe uma tendência aos meus discípulos [principalmente os menos experientes] a me ouvirem com muita atenção, mas percebi ali que fiz um mau uso dessa atenção. Foram apenas 30 segundos talvez, mas quantas vezes alguém pode ser golpeado em 30 segundos durante uma luta? Eu havia tomado 30 segundos da vida de duas pessoas para nada. 
Não podemos “brincar com o Kung Fu”... Pelo menos, começo a ficar menos ignorante com relação ao quão fundo já poderia ter chegado...  Por isso, quando a palavra me foi passada, comentei que não era o caso de achar que estivesse fazendo um mal trabalho, mas que esse trabalho poderia estar bem melhor, se conseguisse me voltar para ele 100%... Levando em consideração de que isso não é uma desculpa, poder expor meus alunos a uma rede de pessoas debruçadas nesse entendimento refinado tem sido fundamental. 

However, it was in the last Meeting on Level 2 of the Ving Tsun Experience Program, that I had an even greater awareness of something that, in fact, was already clear to me...
Si Gung made a series of observations about the “Cham Kiu” Domain and its nuances, so that we could better understand how to work on Level 2. I couldn't believe what I was hearing from the beginning of that night... I was very touched by the level of depth in placements by Si Gung. He demonstrated a deep knowledge, never deviating from the subject. So you who are there until late at night, feel prestigious, because the references always funnel to the initial intention. With that, three days later as I watched two disciples practice Luk Dim Bun Gwan, I made a comment on a side issue, but immediately saw that it was unfounded. Because I am the Si Fu, there is a tendency for my disciples [especially the less experienced ones] to listen to me very carefully, but I realized there that I misused that attention. It was only 30 seconds maybe, but how many times can someone get hit in 30 seconds during a fight? I had taken 30 seconds of two people's lives for nothing.
We can't "play with Kung Fu"... At least, I'm starting to be less ignorant about how deep I could have already reach... That's why, when the word was passed to me, I commented that it wasn't the case of finding that I was doing a bad job, but that this work could be much better, if I could turn to it 100%... Taking into account that this is not an excuse, being able to expose my students to a network of people focused on this understanding refined has been key.


A Disciple of Master Julio Camacho
Thiago Pereira "Moy Fat Lei"
moyfatlei.myvt@gmail.com.