segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Si Fu´s 30th year in the Kung Fu Family: What I saw.


[Si Fu e Jade no lendário apartamento da Pau-Ferro]
[Si Fu and Jade at the legendary Si Fu´s 
former house at Pau-Ferro Road]


 Para chegar até o Mo Gun, tudo o que eu precisava fazer no início da década de 2000, era pegar minha bicicleta preta e descer a rua Retiro dos Artistas em alta velocidade, ouvindo meu Walkman da AIWA. Da mesma forma, Si Fu entrava em seu Fiat Marea na Estrada do Pau-Ferro, e se dirigia até a Taquara, onde ficava o Mo Gun. Dessa maneira lembro do Si Fu estacionando o carro em sua garagem neste endereço, após uma manhã de Vida-Kung Fu, no qual nos reunimos para jogar futebol. Estávamos eu e Romarinho no carro. Si Fu apontava para mim que mais importante do que a maneira que jogamos naquele dia, tinha sido importante observar que eu havia cuidado de grande parte da organização: Aluguel do campo, convite, etc... E ele destacou o momento em que apesar de estarmos em cima do horário para sair do Mo Gun, muitas pessoas ainda estavam num ritmo lento e eu veementemente pedi que se apressassem. Si Fu chamava a minha atenção para o fato de eu nunca participar de nada e na maioria das vezes preferir ficar em silencio. Por que ali, tinha sido diferente ?

To get to Mo Gun, all I had to do in the early 2000s was take my black bike and speed down Retiro dos Artistas Street, listening to my AIWA Walkman. Likewise, Si Fu got into his Fiat Marea at Estrada do Pau-Ferro, and headed to Taquara, where the Mo Gun was located. That's why I remember Si Fu parking his car in his garage at this address, after a morning of Kung Fu Life, in which we got together to play soccer. Romarinho and I were in the car. Si Fu pointed out to me that more important than the way we played that day, it had been important to note that I had taken care of a large part of the organization: field rental, invitation, etc... And he highlighted the moment that despite As we were on schedule to leave Mo Gun, a lot of people were still at a slow pace and I vehemently asked them to hurry up. Si Fu drew my attention to the fact that I never participate in anything and mostly prefer to remain silent. Why had it been different there?


Naqueles tempos, a Jade estudava quase em frente ao prédio onde Si Fu vivia. Com isso, por muitas vezes ela o acompanhava até o Mo Gun[FOTO]. Nunca, em todos aqueles anos, ouvi Si Fu justificar uma dificuldade usando a Jade como desculpa. Ele seguia firme em seu propósito a frente do Mo Gun, inspirando uma série de outras pessoas, mesmo sendo pai e tendo toda uma vida complexa para cuidar fora da Família Kung Fu. 

In those days, Jade studied almost in front of the building where Si Fu used to live. With that, she often accompanied him to Mo Gun[PHOTO]. Never, in all those years, have I heard Si Fu justify a difficulty using Jade as an excuse. He continued his purpose ahead of Mo Gun, inspiring a lot of other people, even though he was a father and had a complex life to take care of outside the Kung Fu Family.

Sua posição de discípulo e de Diretor de Núcleo, por vezes fez com que ele precisasse se ausentar em viagens para fora do país. Na foto acima, vemos a surpresa preparada pela Jade, com uma faixa onde podemos ler: “Bem-Vindo papai”. 
E exatamente por esse tipo de gesto, que eu percebia de maneira ainda muito mal elaborada, que a conexão entre corações permite com que você faça o que tem que fazer sem que sua ausência seja sentida negativamente. Até porque, muitas pessoas estão presentes fisicamente mas o coração está em outro lugar... E Si Fu sempre estava presente de coração, onde quer que estivesse. 

His position as disciple and Director of a MYVT School, sometimes meant that he needed to be absent on trips abroad. In the photo above, we see the surprise prepared by Jade, with a banner where we can read: “Welcome home dad”.
It is precisely because of this kind of gesture, which I used to notice in a very poorly elaborated way, that the connection between hearts allows you to do what you have to do without your absence being negatively felt. Also because, many people are physically present but the heart is elsewhere... And Si Fu was always present from the heart, wherever he was.
[Si Fu e Jade no Marea]
[Si Fu and Jade inside his former Fiat Marea]

Como disse acima, Si Fu tinha um Marea. E para as condições da média da população brasileira, era um excelente carro. Por isso, quando ele me deu carona pela primeira vez e eu tinha apenas dezesseis anos. Voltávamos juntos depois que o Mo Gun tinha fechado. Quase chegando no Largo do Pechincha, deixei transparecer que estava impressionado por um profissional de artes marciais ter um carro tão bom quanto aquele. Si Fu percebendo, falou em poucas palavras da importância de estarmos atentos a nossa apresentação pessoal com relação a sociedade, e que aquela, era uma das coisas que o Ving Tsun proporcionava: Uma vida digna. 
Voltaríamos nesse assunto, sete anos depois, quando sugeri que gostaria de ser profissional e ele disse-me enquanto escolhia carne no antigo Wall-Mart da Barra: “Você nunca vai ser rico, pode esquecer. Mas eu garanto que você terá uma vida digna”.

As I said above, Si Fu had a Marea. And for the conditions of the average Brazilian population, it was an excellent car. So when he gave me a ride for the first time and I was only sixteen years old. We would come back together after the Mo Gun had closed. Almost arriving at Pechincha Square, I let it appear that I was impressed that a martial arts professional had such a good car. Si Fu realizing, he spoke in a few words of the importance of being aware of our personal presentation in relation to society, and that that was one of the things that Ving Tsun provided: A dignified life.
We would come back to this subject, seven years later, when I suggested that I would like to be a professional and he told me while choosing meat at the old Wall-Mart in Barra: “You will never be rich, forget it. But I guarantee you will have a dignified life”.

Mais tarde, Si Fu se mudou para a Barra da Tijuca no mesmo condomínio que os avós de Jade. Na foto, vemos Si Fu e Jade no período da mudança, jantando na casa da mãe de Si Fu, Sra Vera Camacho. 
O prédio que o Si Fu morava na Pau-Ferro para mim já era algo incrível. Pois quando alguém sai de Rocha Miranda, bairro onde nasci, morar em Jacarepaguá é o sonho possível. Alguém que consegue morar na Barra, precisava ser rico. 
Si Fu mostrava para mim a cada gesto que eu conseguia enxergar de sua vida particular. Que quando paramos de criar justificativas e colocamos o coração no que estamos fazendo, podemos perceber como promover algo incrível. 

Later, Si Fu moved to Barra da Tijuca in the same condominium as Jade's grandparents. In the photo, we see Si Fu and Jade in the period of home moving, having dinner at the house of Si Fu's mother, Mrs. Vera Camacho.
The building that Si Fu used to live in Pau-Ferro for me was already something amazing. Because when someone leaves Rocha Miranda, the neighborhood where I was born, living in Jacarepaguá is a possible dream. Someone who can live in Barra da Tijuca like he was doing, needed to be rich.
Si Fu showed me trough every gesture I could see of his private life. That when we stop making excuses and put our heart into what we're doing, we can see how to promote something amazing.
[Jade nos primeiros momentos na casa nova]
[Jade enjoys her new home in Barra da Tijuca]

Anos mais tarde, conversei com Jade[foto] sobre uma de suas tatuagens. Não estava entendendo o que ela significava. Jade fez uma tatuagem deste conjunto de prédios, devido a importância que eles tiveram e tem para ela. Aquela tatuagem me tocou muito, acho que faria o mesmo se descobrisse como tatuar o quintal dos meus avós. 

Years later, I talked to Jade[photo] about one of her tattoos. I didn't understand what she meant. Jade got a tattoo of this set of buildings, due to the importance they had and has for her. That tattoo touched me a lot, I think I would do the same if I figured out how to tattoo my grandparents' backyard.
[Jade conhece o novo carro de seu pai]
[Jade wih Si Fu´s new car for the very first time]

Mais tarde, Si Fu trocou seu Marea por um novíssimo Fiat Palio Weekend. Eu estava no Mo Gun com o Si Suk André Cardoso e lembro dele nos convidar para descer e ver o carro. Si Suk André é uma pessoal muito especial e ficou muito feliz pela conquista de Si Fu. Ele achava que esse modelo era mais condizente para transportar uma família e as amiguinhas da Jade do que o Marea. 
Aquela maneira de pensar me marcou profundamente. Devido a minha história de vida, ter um carro já era algo incrível, e escolher o modelo de acordo com o contexto de vida não sendo rico. Era algo impensável. Eu guardei aquelas palavras. 

Later, Si Fu traded his Marea for a brand new Fiat Palio Weekend. I was at Mo Gun with Si Suk André Cardoso and I remember him inviting us to go down and see the car. Si Suk André is a very special person and was very happy for the achievement of Si Fu. He thought that this model was more suitable for transporting a family and Jade's little friends than Marea.
That way of thinking left a deep impression on me. Due to my life story, having a car was already something amazing, and choosing the model according to the context of life not being rich. It was unthinkable. I saved those words.

Mais tarde, Si Fu precisou retornar ao antigo apartamento da Pau-Ferro novamente. Naquela mesma época, nasceu a Julinha, que a Jade segura em seu colo. 
Para mim, eu apenas fiquei feliz de ter Si Fu morando perto de casa novamente. Então ele pegava a estrada para a Barra da Tijuca, onde estava o novo endereço do Mo Gun, todos os dias.

Later, Si Fu had to return to Pau-Ferro's old apartment again. At that same time, Julinha was born, which Jade holds in her lap.
For me, I was just happy to have Si Fu living close to my home again. Then he took the road to Barra da Tijuca, where Mo Gun's new address was, everyday.
[Primeiro contato da Julinha com o Zafira]
[Julinha, Si Fu´s second daughter, first
 contact with Si Fu´s new ride]

Quando a Julinha nasceu e foi crescendo, Si Fu viu a necessidade de trocar de carro mais uma vez. A sua Zafira, marcou toda uma geração de praticantes. Pude viajar para São Paulo com Si Fu nesse carro, tivemos muitas conversas determinantes enquanto ele dirigia...E também peguei muitas caronas de volta para Jacarepaguá com ele e o Thiago Silva no banco traseiro. 
Tempos depois, ele resolveu investir numa pequena TV com DVD para que a Julinha pudesse assistir em sua cadeirinha no banco de trás. Eu sai com ele para fazer a instalação. Si Fu me explicava com muitos detalhes sobre a lógica que usava para fazer esses investimentos. Eu prestava atenção e tentava guardar tudo o que podia. E sabia, que uma vida baseada na excelência, tinha seu preço.

When Julinha was born and grew up, Si Fu saw the need to change cars once again. His Zafira marked a whole generation of practitioners. I was able to travel to São Paulo with Si Fu in this car, we had many decisive conversations while he was driving...And I also took a lot of rides back to Jacarepaguá with him and Thiago Silva in the back seat.
Later, he decided to invest in a small TV with DVD so that Julinha could watch it in her car seat in the back seat. I went out with him to do the installation. Si Fu explained to me in great detail the logic he used to make these investments. I paid attention and tried to save as much as I could. And I knew that a life based on excellence had its price.
Si Fu então mudou-se ao final da década de 2000, para um apartamento muito marcante no bairro da Freguesia. Jade[foto] entrava na adolescência e eu frequentava bastante esse local. Por conta da varanda ser extensa, conseguíamos tranquilamente praticar ali.. 

Si Fu then moved in the late 2000s to a very striking apartment in the Freguesia district. Jade[photo] was entering her teenager years and I used to go to this place a lot. Because the balcony was extensive, we were able to calmly practice in this place.

 Após um período de transição, Si Fu mudou-se para aquele mesmo condomínio dos avós da Jade na Barra[FOTO]. Desta vez muito mais firme em suas convicções, mesmo vivendo um momento financeiramente desafiador, Si Fu fez esse movimento para estar próximo a família. Muitas coisas me marcaram naquele período, mas uma das mais marcantes, foi o fato de Si Fu ter tido a possibilidade de morar num apartamento sem custos por um período. Ele preferiu não faze-lo dizendo-me : “O preço mais a frente, vai sair muito mais caro”.  
Aquelas palavras me remeteram as conversas em seu Marea e no Wall-Mart... Eu finalmente entendia a ideia de “dignidade”. Eu achava que Si Fu estava se referindo a ganhos financeiros, mas naquele momento percebi que “ser capaz de ter uma vida digna”, era algo muito mais profundo...

After a period of transition, Si Fu moved to that same condominium Jade's grandparents in Barra. This time, much more firmly in his convictions, even though he was experiencing a financially challenging time, Si Fu made this move to be closer to his family. Many things marked me during that period, but one of the most striking was the fact that Si Fu was able to live in an apartment free of charge for a period. He preferred not to do it saying to me: “This will have a bigger cost in the future”.
Those words reminded me of conversations on his Marea and at Wall-Mart... I finally understood the idea of “dignity”. I thought Si Fu was referring to financial gain, but at that moment I realized that “being able to have a dignified life” was something much deeper...

Si Fu então me disse :“Eu não me vejo como morador de um bairro em específico. Hoje claramente, eu me vejo como um cidadão do mundo”. - Tempos depois ele mudava-se para os EUA onde reside até o presente momento[FOTO]. Si Fu mudou-se algumas vezes antes dos EUA, teve ainda outros carros e inclusive preferiu não ter mais nenhum. Hoje, posso enxergá-lo como um grande realizador. Alguém que com todas as dores que a vida promove, escolhe sempre a ação assertiva do que a justificativa ensaiada. 
Uma vida baseada na excelência tem seu preço sim, mas a marcialidade que Si Fu desenvolveu nesse período de 30 anos. Permite com que ele tenha a força necessária para agir de acordo com seus valores e lidar com as consequencias. Talvez seja por isso, que ele tenha escrito em seu livro “Tao do Surf”, que se “ voce acha que pode ou que não pode. Em ambos os casos, voce está com a razão”.

Si Fu then told me: “I don't see myself as a resident of a specific neighborhood. Clearly today, I see myself as a citizen of the world”. - Sometime later he moved to the US where he lives until the present moment [PHOTO]. Si Fu moved a few times before move to the US, and he still had other cars and even preferred not to have any more. Today, I can see him as a great doer. Someone who, with all the pain that life promotes, always chooses assertive action over rehearsed excuses.
A life based on excellence has its price, yes, but the martiality that Si Fu developed in this period of 30 years. It allows him to have the necessary strength to act in accordance with his values and deal with the consequences. Maybe that's why he wrote in his book “Tao do Surf”, that if “you think you can or you can't. In both cases, you are right”.




The Disicple of Master Julio Camacho
Thiago Pereira "Moy Fat Lei"
moyfatlei.myvt@gmail.com











quinta-feira, 26 de agosto de 2021

How can we learn to stop bulshitting using "Jing Choei" (戰 捶) and “Ok”


O uso de posições corporais exóticas pelo Sistema Ving Tsun, faz com que precisemos nos reorganizar estruturalmente quando vamos praticar. Ao longo do tempo, conseguimos descobrir atalhos ou remendos, e apelamos para a força usurpadora sem perceber enquanto praticamos com alguém. Os anos passam, e voce finalmente se depara com o "Jing Choei" (戰 捶). 
O "Jing Choei" (戰 捶) é um trabalho muito curioso, pois é requisitado a você, que golpeie com tudo o que você tem, mas você precisa obedecer alguma regras como: Golpear com as duas mãos no mesmo ponto e não tirar o pé do chão ao golpear. 
Essa posição pode vir a ser tão incomoda, que muitos desistem de praticá-la. Contornamos o desconforto e nos convencemos de que “Já deu”. E por mais que seu Si Fu deseje verdadeiramente ajudá-lo, só cabe uma pessoa no  "Jing Choei" (戰 捶): Você. 

The use of exotic body positions by the Ving Tsun System makes us need to structurally reorganize ourselves when we go to practice. Over time, we are able to discover shortcuts or patches, and we appeal to the usurping force without realizing it while practicing with someone. Years pass, and you finally come across "Jing Choei" (戰 捶).
The "Jing Choei" (戰 捶) is a very curious practice, as you are required to hit with everything you have, but you need to obey some rules like: Hitting with both hands at the same point and not taking the foot off the ground when striking.
This position can become so uncomfortable that many give up on practicing it. We work around the discomfort and convince ourselves that “It's ok for now”. And as much as your Si Fu  wants to help you, there's only one person in the "Jing Choei" (戰 捶): You.

[Eu e meu Si Fu em um jantar durante sua visita mais recente ao Brasil]
[Me and my Si Fu at a dinner during his latest visit to Brazil]

Existe um termo em inglês que se diz “bulshitting”. Então seja na relação com seu Si Fu ou na prática do  "Jing Choei" (戰 捶), não vai existir espaço para  “bulshitting”. E por conta disso, uma das coisas que aprendi com meu Si Fu nos últimos anos é responder  “Ok”, quando me comunico por mensagem. 
O  “Ok” quando respondido por mensagem, tem um poder muito grande, principalmente se a pessoa do outro lado está num processo de “bulshitting”. Então é como se voce apenas dissesse: “ Ei cara, não tenho tempo a perder com besteira!Se você quer conversar nós podemos, mas para isso, não tenho tempo.” - E tudo isso é dito com um “Ok”. E isso só é possível, porque segundo meu Si Fu: “...A linguagem do Kung Fu, comumente é silenciosa...” . 

There is an term in english called “bulshitting”. So whether in the relationship with your Si Fu or in the practice of "Jing Choei" (戰 捶), there will be no space for "bulshitting". And because of that, one of the things I've learned with my Si Fu in recent years is to answer “Ok”, when I communicate by message.
The “Ok”, when answered by message, has great power, especially if the person on the other side is in a “bulshitting” process. So it's like you just say, “Hey man, I don't have time to waste on bullshit! If you want to talk we can, but for that, I don't have time.” - And all this is said with an "Ok". And this is only possible, because according to my Si Fu: “...The language of Kung Fu is usually silent...” - He says.

[Si Gung corrige minha postura durante um seminário]

[Si Gung corrects my posture during a seminar]

Então com o  "Jing Choei" (戰 捶), o mesmo ocorre: Você tem a possibilidade de se desenvolver, mas o desconforto deste trabalho [Assim como o da Vida-Kung Fu], faz com que você prefira começar o processo de dar desculpas. Porém, só está você ali. Então quando você diz: “Ei cara, sabe de uma coisa? Acho que já deu por hoje!”  - Para quem você exatamente está mentindo? 
No  "Jing Choei" (戰 捶) e na vida, nunca paramos na metade. Nós vamos até o final. 

So with "Jing Choei" (戰 捶), the same happens: You have the possibility to live it and develop yourself, but the discomfort of this practice [As well as the Kung Fu-Life], makes you prefer to start the process to make excuses . However, only you are there. So when you say, “Hey man, you know what? I think it's done for today!" - Who exactly are you lying to?
In "Jing Choei" (戰 捶) and in life, we never stop halfway. We go to the end.



The Disicple of Master Julio Camacho

Thiago Pereira "Moy Fat Lei"
moyfatlei.myvt@gmail.com





 

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

KUNG FU GRANDMASTER TALKS MARVEL´S SHANG CHI.

 

BY
THIAGO PEREIRA

Agora já por mais de uma década, a MARVEL STUDIOS conseguiu uma legião de fãs ao redor do mundo, que valorizam bastante cada novo lançamento. Graças ao trabalho sempre feito com esmero e muita inteligencia e visão,a MARVEL STUDIOS conseguiu a confiança dos fãs. Com isso, mesmo títulos um tanto quanto obscuros para o grande público, sempre criam grande expectativa de ser a nova grande surpresa, como no caso de “Guardiões da Galáxia”[2014] e até mesmo do próprio “Homem de Ferro”[2008]. 
Então “Shang-Chi e a lenda dos dez anéis” já causa comoção entre fãs da MARVEL, antigos fãs dos quadrinhos, e até mesmo, os fãs dos filmes chineses de artes marciais. E foi por isso, que convidamos o Grão-Mestre Leo Imamura, que tem 50 anos de vida dedicados as artes marciais, para comentar detalhes da época em que lia os quadrinhos de “Shang-Chi” e de curiosidades muito importantes do cinema chinês e desta cultura ainda tão misteriosa para o ocidente....

Now for more than a decade, MARVEL STUDIOS has achieved a legion of fans around the world, who highly value each new release. Thanks to the work always done with care and a lot of intelligence and vision, MARVEL STUDIOS has gained the confidence of its fans. With that, even a somewhat obscure title for the general public, always create great expectations of being a new big surprise, as in the case of "Guardians of the Galaxy" [2014] and even "Iron Man" [2008] .
So “Shang-Chi and the legend of the ten rings” is already causing a stir among MARVEL fans, former comic book fans, and even fans of Chinese martial arts movies. And that's why we invited Grandmaster Leo Imamura, who has 50 years of life dedicated to the martial arts, to comment on details of the time he was reading “Shang-Chi” comics and very important curiosities of Chinese cinema and of this culture still so mysterious to the West....



1-  INSIDE VING TSUN - GM Léo, o senhor pode falar um pouco sobre quem é o senhor e sua história com as artes marciais?

GM LEO - Meu nome é Leo Imamura, pratico artes marciais a cinquenta anos. Meu interesse principal é o Sistema Ving Tsun. Fui introduzido a esse Sistema pelo Grão-Mestre Li Hon Ki[1952-2016] e tive  a honra de ser discípulo do Patriarca Moy Yat [ 1938-2001] que por sua vez, foi discípulo direto do Patriarca Ip Man [1893-1972].


1- INSIDE VING TSUN - GM Léo, can you talk a little about who you are and your history with the martial arts?

GM LEO - My name is Leo Imamura, I practice martial arts for fifty years. My main interest is the Ving Tsun System. I was introduced to this System by Grand Master Li Hon Ki[1952-2016] and had the honor of being a disciple of Patriarch Moy Yat [1938-2001] who in turn was a direct disciple of Patriarch Ip Man [1893-1972] .



2- INSIDE VING TSUN - Por qual razão o senhor gostava do personagem “Shang-Chi”? O senhor lembra da sua história favorita ?

GM LEO - Curioso porque o personagem Shang-Chi, que quando criança eu chamava de “Shang-Shi”. Eu conhecia como “O mestre do Kung Fu”. As feições dele, lembravam muito as do Bruce Lee. Nos quadrinhos, sempre tinha alguma referencia aos movimentos de “Kung Fu”, e eu gostava muito, pois já tinha iniciado minha jornada nas artes marciais. 
Eu já tinha contato com o “Kung Fu”, através da série homônima estrelada por David Carradine[1936-2009]. Porém, para mim o mais interessante não era a história, eram os movimentos do Shang-Chi e tudo aquilo que vinha agregado e que lembrava uma prática de “Kung Fu”.
Observe a precariedade, pois para que pudéssemos nos aproximar do meio do Kung Fu, nós precisávamos adentrar o mundo de fantasia das histórias em quadrinhos. 
Então precisamos identificar a grande diferença que existe nos dias de hoje, com relação ao passado. Porém, ainda existe uma certa semelhança... Pois ainda que as pessoas tenham hoje muito mais informações e elementos de aproximação, continuam ainda distantes do mundo do Kung Fu de alguma maneira. Então, como profissionais de artes marciais, isso é algo que deveríamos refletir. 

2- INSIDE VING TSUN - Why did you like the character “Shang-Chi”? Do you remember your favorite story?

GM LEO - Curious because the character Shang-Chi, who as a child I called “Shang-Shi”. I knew him as “The Kung Fu Master”. His features were very reminiscent of Bruce Lee. In the comics, there was always some reference to “Kung Fu” movements, and I liked it a lot, as I had already started my journey in martial arts.
I already had contact with “Kung Fu”, through the homonymous series starring David Carradine[1936-2009]. However, for me the most interesting thing wasn't the story, it was the Shang-Chi movements and everything that came together and that reminded me of a “Kung Fu” practice.
Note the precariousness, because in order for us to get closer to the world of Kung Fu, we needed to step into the fantasy world of comic books.
So we need to identify the big difference that exists today, in relation to the past. However, there is still a certain similarity... Because even though people today have much more information and approach elements, they are still distant from the world of Kung Fu in some way. So, as martial arts professionals, this is something that we should think about.

[Cena do filme considerado o melhor filme de Kung Fu de todos os tempos: “Herói”,2002. Filme que estrela Jet Li, Donnie Yen, Tony Leung, Zhang Zhi Yi e Maggie Cheung. E que foi concebido pelo genial cineasta chamado Zhang Yi Mou]

[Scene from the movie considered the best Kung Fu movie of all time: “Hero”, 2002. Film starring Jet Li, Donnie Yen, Tony Leung, Zhang Zhi Yi and Maggie Cheung. And that was conceived by the genius filmmaker named Zhang Yi Mou]


3-  INSIDE VING TSUN - Muito se fala atualmente em “multiverso”, quando se trata de filmes de super heróis. O que poucos sabem, é que na literatura chinesa existe um universo comum a todos os “heróis” chamado “Rios e Lagos” (Jiang Hu). O senhor pode falar um pouco desse conceito de um mundo comum a todos os heróis?

GM LEO - “Jiang Hu”[江湖] é o que podemos chamar de “Mundo do Kung Fu”. Porque é onde os heróis se encontram, ou seja, aqueles que buscam a excelência. E lá, existe uma maneira de ver as coisas...Uma perspectiva de ver as coisas... Muito diferente da forma que nós vemos no mundo comum..
E a razão de se chamar “Jiang Hu”[江湖], é porque “Jiang”[江] que significa “rio” faz referencia a fluidez. O “rio” não se estagna , diferente de como nós percebemos as coisas muitas vezes, “congeladas” dentro do intelecto. Por isso nesse contexto, o intelecto tem uma dinâmica muito diferente daquela que estamos acostumados. Porém, ao mesmo tempo há uma necessidade de serenidade e reflexão representada pelo “Lago” [ “Hu” 湖]. Então, ao mesmo tempo que existe um dinamismo, há uma necessidade de reflexão. 
Por isso, quando temos esse tipo de simbologia, ao citarmos os “Mou Hap”[武俠] ou “Heróis marciais”. Estamos falando de outros tipos de “heroísmo” que serão identificados nesta realidade. São heroísmos de reflexão, heroísmos para com a vida. Ou seja, a excelência para com a vida.
Isso não significa, que estejamos falando de um mundo “marginal” a sociedade convencional... Não é isso. Ele é um mundo no qual podemos nos identificar e conviver com a sociedade convencional, mas ao mesmo tempo, termos capacidade de saber como viver uma vida mais rica. Saber como viver a nossa vida. 

3- INSIDE VING TSUN - There is a lot of talk these days about “multiverse” when it comes to superhero movies. What few people know is that in Chinese literature there is a universe common to all “heroes” called “Rivers and Lakes” (Jiang Hu). Can you talk a little about this concept of a world common to all heroes?

GM LEO - “Jiang Hu”[江湖] is what we can call the “Kung Fu World”. Because that's where heroes meet, that is, those who strive for excellence. And there, there is a way of looking at things... A perspective of looking at things... Very different from the way we see things in the common world...
And the reason for calling it “Jiang Hu”[江湖] is because “Jiang”[江] which means “river” refers to fluidity. The “river” does not stagnate, unlike how we often perceive things, “frozen” within the intellect. So in this context, the intellect has a very different dynamic from what we are used to. However, at the same time there is a need for serenity and reflection represented by the “Lake” [“Hu” 湖]. So, while there is a dynamism, there is a need for reflection.
Therefore, when we have this type of symbology, when we mention the “Mou Hap”[武俠] or “Martial Heroes”. We are talking about other types of “heroism” that will be identified in this reality. They are heroisms of reflection, heroisms towards life. In other words, excellence in life.
This does not mean that we are talking about a world "marginal" to conventional society... It's not that. It is a world in which we can identify and live with conventional society, but at the same time, we are able to know how to live a richer life. Knowing how to live our life.

“...Quando observamos esses 'voos', e aqui eu quero colocar a palavra entre aspas. Podemos entender que se tratam de uma expansão das habilidades naturais que um ser humano possui. Eles não estão lá para romper com a realidade, mas para expandir a realidade..” 
[GM LEO IMAMURA]

“...When we look at these 'flights', and here I want to put the word in quotation marks. We can understand that these are an expansion of the natural abilities that a human being has. They are not there to break with reality, but to expand reality...”
[GM LEO IMAMURA]





4-  INSIDE VING TSUN -Quando “O tigre e o dragão”[2000] foi lançado nos cinemas, o grande público teve contato com a capacidade de voo dos personagens. O senhor poderia explicar o que isso representa e como se diferencia do voo dos heróis ocidentais? Além disso, tem algo a ver com o processo de “Transformação Silenciosa”?

GM LEO - Quando observamos esses “voos”, e aqui eu quero colocar a palavra entre aspas. Podemos entender que se tratam de uma expansão das habilidades naturais que um ser humano possui. Eles não estão lá para romper com a realidade, mas para expandir a realidade. Dai a importância de identificarmos neste símbolo, a importância do praticante de artes marciais, saber lidar com seus recursos internos. Pois são esses recursos internos, que irão prover a possibilidade de nos utilizarmos dos recursos externos. E a partir daí, podermos realizar coisas de grande raridade e de grande dificuldade para as pessoas comuns, que serão simbolizadas principalmente na literatura  “Wu Xia”[武俠]. Que foi de onde se inspirou toda a narrativa existente no filme  “O tigre e o dragão”[2000], e que nos ajuda a entender porque esses artistas marciais ficcionais fazem feitos excepcionais. 
Porém, quando levamos essa ideia para os artistas marciais reais, vamos observar que são ações sutis. São ações comuns, mas que trazem grande impacto, conforme são simbolizadas nesses romances. 

4- INSIDE VING TSUN -When “Crouching Tiger, Hidden Dragon”[2000] was released in theaters, the general public had contact with the characters' ability to fly. Could you explain what this represents and how it differs from the flight of Western heroes? Also, does it have anything to do with the “Silent Transformation” process?

GM LEO - When we observe these “flights”, and here I want to put the word in quotes. We can understand that these are an expansion of the natural abilities that a human being has. They are not there to break with reality, but to expand reality. Hence the importance of identifying in this symbol, the importance of the practitioner of martial arts, knowing how to deal with their internal resources. Because it is these internal resources that will provide the possibility for us to use external resources. And from there, we can do things that are very rare and very difficult for common people, which will be symbolized mainly in the literature “Wu Xia”[武俠]. Which is where all the existing narrative in the movie “Crouching Tiger, Hidden Dragon”[2000] was inspired, and which helps us to understand why these fictional martial artists do exceptional things.
However, when we take this idea to real martial artists, let's note that they are subtle actions. These are common actions, but they have great impact, as they are symbolized in these novels.

[Bruce Lee, responsável direto pela popularização do Kung Fu 
em todo o planeta a partir da década de '70, com a chegada de seus filmes ao ocidente]

[Bruce Lee, directly responsible for popularizing Kung Fu
around the planet in the '70s, with the arrival of his films in the West]

“...Podemos entender o Kung Fu no cinema como uma fantasia necessária para aquilo que não pode ser compreendido pelo senso comum...”
 [GM LEO IMAMURA]

“...We can understand Kung Fu in cinema as a necessary fantasy for what cannot be understood by common sense...”
  [GM LEO IMAMURA]



6-  INSIDE VING TSUN -No artigo do Prof. Ni no NY Times (Kung Fu for Philosophers). Ele fala sobre como o cinema ajudou a divulgar as artes marciais chinesas, mas como também contribuiu com uma ideia fantástica que não condiz com uma visão ampla de “Kung Fu”. O senhor poderia compartilhar sobre o que acha dessa apresentação da cultura chinesa como algo fantástico e do que podemos entender por “Kung Fu”?

GM LEO - Isso depende muito da maneira pela qual olhamos o que seria “fantástico”. Pois diferente de algo “transcendental”, segundo o Professor François Jullien [Professor da Universidade de Paris VII e diretor do Instituto do Pensamento Contemporâneo e do Centro Marcel-Granet. É também membro senior do Instituto Universitário da França], nós temos uma perspectiva de imanência ao “fantástico”. Com isso, nós podemos perfeitamente entender o Kung Fu no cinema como uma fantasia necessária para aquilo que não pode ser compreendido pelo senso comum.
Nós vemos isso em vários sentidos para que possamos reproduzir em uma determinada linguagem, que é a linguagem cinematográfica, aquilo que possa vir a escapar a percepção do senso comum.
O que acontece é que muitas vezes a pessoa desavisada, vai querer reproduzir a fantasia do cinema no mundo real. Porém, acho que já evoluímos bastante para percebermos as diferentes distinções entre uma linguagem cinematográfica e o que acontece no mundo real. E ao fazermos essas distinções, poderemos ver também ver as diferentes possibilidades que o mundo real nos oferece, mas que aqui eu quero colocar entre aspas o “senso de realidade” acaba também nos impedindo de levar essas possibilidades em consideração. 

6- INSIDE VING TSUN -In the article by Prof. Ni at the NY Times (Kung Fu for Philosophers). He talks about how cinema helped to spread the Chinese martial arts, but also contributed with a fantastic idea that doesn't fit with a broad vision of “Kung Fu”. Could you share what you think of this presentation of Chinese culture as something fantastic and what we can understand by “Kung Fu”?

GM LEO - That depends a lot on the way we look at what would be “fantastic”. Well, different from something “transcendental”, according to Professor François Jullien [Professor at the University Paris VII and director of the Institute of Contemporary Thought and the Marcel-Granet Center. He is also a senior member of the University Institute of France], we have a perspective of immanence to the “fantastic”. With that, we can perfectly understand Kung Fu in cinema as a necessary fantasy for what cannot be understood by common sense.
We see this in several senses so that we can reproduce in a certain language, which is the cinematographic language, what may come to escape the perception of common sense.
What happens is that often the unsuspecting person will want to reproduce the fantasy of cinema in the real world. However, I think we've come a long way to understand the different distinctions between a cinematic language and what happens in the real world. And when we make these distinctions, we will also be able to see the different possibilities that the real world offers us, but here I want to put in quotes the “sense of reality” also ends up preventing us from taking these possibilities into consideration.

 Professor François Jullien [Professor da Universidade de Paris VII e 
diretor do Instituto do Pensamento Contemporâneo e do Centro Marcel-Granet. 
É também membro senior do Instituto Universitário da França]

Professor François Jullien [Professor at the University of Paris VII and
director of the Marcel-Granet Center.
 He is also a senior member of the French University Institute]


5- INSIDE VING TSUN - Quando falamos em “Mo Lam”[武林], ele seria um paralelo ao que “Jiang Hu”[江湖] é na literatura ? Além disso, o senhor poderia falar do que o Prof Francois Jullien chamou de “sociedade imanente”?

GM LEO -  O “Mo Lam”[武林] é uma sociedade de fundo que movimenta a sociedade convencional, mas ao mesmo tempo é uma sociedade pouco identificável. A partir do momento que esta sociedade trabalha com o que chamamos de “transformações silenciosas”. Por isso, o que se passa nesta sociedade de fundo chamada “Mo Lam”[武林] , tem muito mais a ver com estruturas internas, onde a coerência profunda é muito importante para que possamos compreender ou aceitar coisas que aparentemente são incoerentes dentro de uma sociedade convencional, mas que através do convívio ou do entendimento do “Mo Lam”[武林] . Lhe é permitida uma melhor capacidade de ajuste, de adaptação ou simplesmente uma melhor capacidade de extrair benefício das situações. Pois você vai ter uma outra perspectiva de visão, uma outra lente para enxergar aquilo que está acontecendo. 


5- INSIDE VING TSUN - When we talk about “Mo Lam”[武林], would it be a parallel to what “Jiang Hu”[江湖] is in the literature? Furthermore, could you speak of what Prof Francois Jullien called “immanent society”?

GM LEO - The “Mo Lam”[武林] is a fund society that moves the conventional society, but at the same time it is a barely identifiable society. From the moment that this society works with what we call “silent transformations”. Therefore, what happens in this background society called “Mo Lam”[武林] has much more to do with internal structures, where deep coherence is very important for us to understand or accept things that are apparently inconsistent within a conventional society, but through the coexistence or understanding of “Mo Lam”[武林] . You are allowed a better ability to adjust, adapt or simply a better ability to extract benefit from situations. Because you will have another perspective of vision, another lens to see what is happening. 
[Grão-Mestre Leo Imamura tem dedicado cinquenta anos
 ininterruptos de sua vida as artes marciais]

[Grandmaster Leo Imamura has dedicated fifty years
  of his life the martial arts]

“...E da mesma forma, se nós quisermos construir algo para daqui a vinte anos, precisamos pensar nisso hoje. E infelizmente, as pessoas não tem maturidade para enxergar isso. Os que tiverem, terão daqui a vinte anos uma condição privilegiada...” [GM LEO IMAMURA]

“…And by the same token, if we want to build something twenty years from now, we need to think about it today. And unfortunately, people don't have the maturity to see this. Those who do will have a privileged status in twenty years from now...” [GM LEO IMAMURA]

7-  INSIDE VING TSUN -O senhor poderia explicar o conceito de “herói cultural” e da importância da transmissão oral para a preservação de um legado? Além disso, por ocasião do lançamento de “O Tigre e o Dragão”, o senhor escreveu um artigo para a KIAI na época chamado: “A tradição como processo de inovação”. O senhor pode aproveitar e explicar como podemos entender esse título 20 anos depois?

GM LEO - Bem a expressão  “herói cultural”, foi cunhada pelo Professor Roger T. Ames [co-diretor do Programa do Centro de Desenvolvimento de Estudos Asiáticos da Universidade do Havaí]. Este termo diz respeito a importância dos ancestrais como pessoas exemplares, que alcançaram simbolicamente a excelência naquilo que pessoas estão buscando e passam a servir de referencia para todos nós. E nesse sentido, nós podemos associar ao artigo da querida revista KIAI, no qual eu falava sobre a importância da tradição ser um processo de inovação. Ou quem sabe ao contrário: A inovação ser um processo de tradição. E isso continua sendo cada vez mais válido, porque a inovação hoje não é mais exceção, ela é regra. E com isso , nós conseguimos validar o que anunciamos vinte anos atrás. 
E se hoje temos situações dentro da Família Kung Fu que lidero, ou mais amplas, como no próprio mercado. Decorrem disso que nós vimos vinte anos atrás. E da mesma forma, se nós quisermos construir algo para daqui a vinte anos, precisamos pensar nisso hoje. E infelizmente, as pessoas não tem maturidade para enxergar isso. Os que tiverem, terão daqui a vinte anos uma condição privilegiada. Para tanto, precisam entender melhor a importancia da inovação ser uma tradição. O sentido de inovação deve estar presente a cada geração. E esse entendimento é fundamental, para que com isso nós possamos construir, toda uma riqueza com relação ao legado. O legado, é algo muito maior do que o ser humano e por isso nós não conseguimos que em uma vida humana, isso seja possível de ser alcançado. Ele é comparável a construção de um país...De uma cultura... São necessárias, várias gerações para que se possa ser consolidado. 

7- INSIDE VING TSUN - Could you explain the concept of “cultural hero” and the importance of oral transmission for the preservation of a legacy? Also, on the occasion of the release of “The Tiger and the Dragon”, you wrote an article for KIAI at the time called: “Tradition as a process of innovation”. Can you take the opportunity and explain how we can understand this title 20 years later?

GM LEO - Well, the term “cultural hero” was coined by Professor Roger T. Ames [co-director of the Asian Studies Development Center Program at the University of Hawaii]. This term refers to the importance of ancestors as exemplary people, who symbolically achieved excellence in what people are looking for and start to serve as a reference for all of us. And in this sense, we can associate it with the article in the dear brazilian KIAI magazine, in which I spoke about the importance of tradition being a process of innovation. Or maybe the opposite: Innovation is a process of tradition. And this continues to be more and more valid, because innovation today is no longer the exception, it is the rule. And with that, we were able to validate what we announced twenty years ago.
And if today we have situations within the Kung Fu Family that I lead, or broader ones, such as in the market itself. They follow from what we saw twenty years ago. And in the same way, if we want to build something twenty years from now, we need to think about it today. And unfortunately, people don't have the maturity to see this. Those who do will have a privileged status in twenty years. To do so, they need to better understand the importance of innovation being a tradition. The sense of innovation must be present in every generation. And this understanding is fundamental, so that with this we can build a wealth  in relation to the legacy. The legacy is something much bigger than the human being and that's why we can't manage that in a human life, this is possible to be achieved. It is comparable to building a country... A culture... It takes several generations for it to be consolidated.


[Tony Leung Chiu-wai, com os anéis, é um ator e cantor chinês. Ele foi o
 vencedor do prêmio de melhor ator do Festival de Cannes
 por seu papel em Amor à Flor da Pele e será o pai de Shang-Chi.]

[Tony Leung Chiu-wai, with the rings, is a Chinese actor and singer. he was the
  winner of the Cannes Film Festival best actor award
  and will be the father Shang-Chi.]
                                                                       

8-  INSIDE VING TSUN -Para encerrar, o vilão do filme “Shang-Chi” será interpretado pelo ator Tony Leung. Ele também interpretou o ancestral do estilo Ving Tsun, Patriarca Ip Man no filme “The Grandmasters”[2013] de Wong Kar Wai. Este filme foi escrito pelo cineasta Xu Haofeng. O senhor poderia falar da importância de Xu Haofeng para a ressignificação do grande público, a respeito de uma visão ampla do Kung Fu no cinema?

GM LEO - Acontece que o Mestre Xu Hao Feng  ele é um grande historiador e pesquisador com relação as questões do Kung Fu. E o diretor Wong Kar Wai, por ser muito sério em todos os seus empreendimentos, ele contatou Xu Hao Feng para que pudesse dar fundamento ao roteiro que ele por ventura iria escrever sobre o Patriarca Ip Man. 
Durante a pesquisa feita por Wong Kar Wai , ele identificou uma quantidade muito significativa de Grão-Mestres que suplantava e que também tinham destaque, assim como o Patriarca Ip Man. Então suplantava o que? O comum. Então Wong Kar Wai, viu que seria interessante prestar uma homenagem, não só ao Sistema Ving Tsun, mas também ao Bai Ji , ao Ba Gua, ao Xing Yi... Que são grandes estilos e que portanto são muito valorizados dentro da China. E foi por isso mesmo que nós temos diferentes versões de título para este filme, sendo a versão de Hong Kong, mas aproximada do título “The Grandmasters”. 
O diretor Xu Hao Feng então se esmera em tentar mostrar alguma visão sobre o que seria o  “Mo Lam”[武林]. Talvez o filme pudesse ter sido mais palatável para o publico em geral, mas ele tem elementos muito típicos do  “Mo Lam”[武林]. Porém, o que o leigo muitas vezes entende, é que no  “Mo Lam”[武林] todo mundo acaba enganando um ao outro, o que não é verdade. Existe uma outra situação a ser colocada, que é a ideia de saber contrariar o consenso, como já nos dizia o general Sun Zi [conhecido como Sun Tzu]. 

8- INSIDE VING TSUN -In closing, the villain of the movie “Shang-Chi” will be played by actor Tony Leung. He also played Ving Tsun-style ancestor Patriarch Ip Man in Wong Kar Wai's movie “The Grandmasters”[2013]. This movie was written by filmmaker Xu Haofeng. Could you talk about the importance of Xu Haofeng for the redefinition of the general public, regarding a broad vision of Kung Fu in cinema?

GM LEO - It turns out that Master Xu Hao Feng is a great historian and researcher regarding Kung Fu issues. And director Wong Kar Wai, being very serious in all his endeavors, he contacted Xu Hao Feng so that he could lay the groundwork for the screenplay he was going to write about Patriarch Ip Man.
During the research done by Wong Kar Wai, he identified a very significant number of Grand Masters that supplanted and who were also prominent, as well as Patriarch Ip Man. So what supplanted? The common. So Wong Kar Wai saw that it would be interesting to pay homage not only to the Ving Tsun System, but also to Bai Ji, Ba Gua, Xing Yi... which are great styles and therefore highly valued within China. And that's why we have different title versions for this movie, being the Hong Kong version, but closer to the title “The Grandmasters”.
Director Xu Hao Feng then takes great study to try to show some vision about what would be “Mo Lam”[武林]. Perhaps the movie could have been more palatable to the general public, but it has very typical “Mo Lam”[武林] elements. However, what the layman often understands is that in “Mo Lam”[武林] everyone ends up deceiving each other, which is not true. There is another situation to be raised, which is the idea of ​​knowing how to contradict the consensus, as General Sun Zi [known as Sun Tzu] told us.
[Grão-Mestre Leo Imamura que apareceu bastante em revistas especializadas e na TV nos anos '90. 
Agora tem seu próprio canal de Youtube chamado KUNG FU LIFE].

[Grandmaster Leo Imamura who appeared a lot in specialized magazines and on TV in the '90s.
Now he has his own Youtube channel called KUNG FU LIFE].


 INSIDE VING TSUN - Uma pergunta extra: O senhor poderia  falar um pouco sobre o trabalho que vem promovendo no YouTube e sobre o curso que está conduzindo sobre o “Ving Tsun Kuen Kuit”?

GM LEO - A coleção “Ving Tsun Kuen Kuit” é uma coleção muito importante, porque o Patriarca Moy Yat ele selcionou 51 carimbos de pedra, onde foi possível colocar importantes “Kuen Kuit” estrategicamente selecionados. Então porque de tantos “Kuen Kuit” ele escolheu especificamente alguns deles? Então é aí que entra o nosso trabalho de organizá-los, para que as pessoas possam entende-lo. Primeiro, sobre como é que a arte plástica, arte do carimbo, a arte da inscultura, etc... Podem ajudar as artes marciais e seu entendimento. 
Então, estamos falando de um curso que é de interesse não só de pessoas que praticam artes marciais mas também, aquelas que tem interesse em saber o que é viver uma vida com excelência e suas sutilezas. 
Para um descendente do Patriarca Moy Yat, isso é uma obrigação. É um estudo importantíssimo, pois ele faz algumas escolhas que elas são imprescindíveis de serem observadas por seus descendentes. Para que com isso, eles possam usufruir de maneira apropriada daquilo que se chama “Ving Tsun Kuen Kuit”. E que inclusive, foi mencionado no filme “Ip Man”[2008] de Wilson Yip estrelando Donnie Yen. 

INSIDE VING TSUN - An extra question: Could you talk a little about the work you have been promoting on YouTube and the course you are conducting on the “Ving Tsun Kuen Kuit”?

GM LEO - The collection “Ving Tsun Kuen Kuit” is a very important collection, because Patriarch Moy Yat selected 51 stone stamps, where it was possible to place important “Kuen Kuit” strategically selected. So why out of so many “Kuen Kuit” did he specifically choose some of them? So that's where our job of organizing them comes in, so that people can understand it. First, about how plastic art, seal art, sculpture art, etc... can help martial arts and your understanding.
So, we are talking about a course that is of interest not only to people who practice martial arts but also those who are interested in knowing what it is to live a life with excellence and its subtleties.
For a descendant of Patriarch Moy Yat, this is a must. It is a very important study, as he makes some choices that are essential for his descendants to observe. So that with this, they can properly enjoy what is called “Ving Tsun Kuen Kuit”. And that was even mentioned in Wilson Yip's “Ip Man” [2008] starring Donnie Yen.



Para quem quiser saber mais ou se inscrever no curso, basta clicar AQUI.
A Inside Ving Tsun agradece ao Grão-Mestre Leo Imamura...
“Shang-Chi - E a lenda dos dez anéis” estreia nos cinemas brasileiros em 2 de Setembro. 


For those who want to know more or register for the course, just click HERE.
Inside Ving Tsun thanks Grandmaster Leo Imamura...
“Shang-Chi - And the legend of the ten rings” opens in Brazilian cinemas on September 2nd.

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

AN ESSAY ON THE TERM “Si Gung (師公)”

 

[Celebração do Ano Novo Chinês em São Paulo, 2011]
[Chinese New Year Celebration in São Paulo, 2011]

A primeira vez que vi meu Si Gung (師公) pessoalmente foi em 25 de Outubro de 1999. Ele subiu as escadas do antigo Núcleo da Moy Yat Ving Tsun [naquela ainda época chamada de “Martial Art System” e não de “Martial Intelligence”] no Centro da cidade do Rio de Janeiro com um semblante sério e seguido de perto por algumas pessoas. Só trocamos palavras pela primeira vez dois anos depois, numa palestra no antigo Núcleo Jacarepaguá, quando eu já tinha quase 17 anos de idade.
Mas afinal, o que significa o termo “Si Gung (師公)”?

The first time I saw my Si Gung (師公) in person was on October 25, 1999. He climbed the stairs of the former Moy Yat Ving Tsun School [at that time still called “Martial Art System” and not “Martial Intelligence” ] in downtown Rio de Janeiro with a serious face and followed closely by some people. We only exchanged words for the first time two years later, in a lecture at the old school in Jacarepaguá[west zone of Rio], when I was almost 17 years old.
But after all, what does the term “Si Gung (師公)” mean?




Mesmo seu  “Si Fu[師父]”, tem seu próprio  “Si Fu[師父]”. Esta pessoa chamamos de “Si Gung (師公)”. Então, é como se o “Gung (公)” de  “Si Gung (師公)”, significasse  “avô”. Porém, se olharmos com atenção para a gramática do dialeto cantonês, encontraremos o seguinte : O avô paterno de uma criança é considerado seu ancestral, veja: 祖父(Jo Fu). Onde "jo" é ancestral e "fu" é pai. Agora, o avô materno de uma criança, não deixa de ser seu avô, mas veja a cultura inserida no idioma: 外公(Ngoi Gung) - Onde "Ngoi" (外) - significa "fora" e "Gung"(公) como já disse antes é avô. Mas o avô por parte de mãe, é como se fosse "um avô de fora". "alguém de fora"...
Então é como se o ideograma “Si[師]” , desempenhasse um papel importantíssimo nos termos relacionados ao círculo marcial chinês, pois nos permite entender que um ideograma que denota relação familiar precedido de “Si[師]” . Refere-se a um termo, que mesmo nos cinquenta e seis dialetos chineses, só faz sentido dentro do círculo marcial. 

Even his “Si Fu[師父]”, he has his own “Si Fu[師父]”. This person we call “Si Gung (師公)”. So, it's as if the “Gung (公)” in “Si Gung (師公)” means “grandfather”. However, if we look closely at the Cantonese dialect grammar, we will find the following: A child's paternal grandfather is considered his ancestor, see: 祖父(Jo Fu). Where "jo" is ancestor and "fu" is father. Now, the maternal grandfather of a child is still its grandfather, but see the culture inserted in the language: 外公(Ngoi Gung) - Where "Ngoi" (外) - means "outside" and "Gung"(公) as I've said it before is grandfather. But the grandfather on the mother's side is like "a grandfather from outside". "someone from the outside"...
So it is as if the ideogram “Si[師]” played a very important role in terms related to the Chinese martial circle, as it allows us to understand that an ideogram that denotes family relationship is preceded by “Si[師]” . It refers to a term, which even in the fifty-six Chinese dialects, only makes sense within the martial circle.
[Inauguração do primeiro Núcleo da 
Moy Yat Ving Tsun dirigido por mim no Méier,2011]

[Inauguration of the first School of
Moy Yat Ving Tsun directed by me at Meier neighborhood,2011]

Quando você é aceito como discípulo de seu  “Si Fu[師父]”, tradicionalmente é como se o seu  “Si Gung (師公)” também estivesse aceitando essa pessoa. Porém, como um discípulo de segunda geração.
Antigamente não era possível a um discípulo ver o feitos de seu  “Si Gung (師公)”. Porém com o dinamismo dos tempos atuais, Linhagens com mais de duas gerações em atividade plena, se tornam cada vez mais comuns. E estes diferentes níveis relacionais, acabam por se tornar desafios do mundo moderno, para aqueles que salvaguardam um Sistema Marcial Chinês como o Ving Tsun. 

When you are accepted as a disciple of your “Si Fu[師父]”, traditionally it is as if your “Si Gung (師公)” is also accepting that person. However, as a second generation disciple.
In the past it was not possible for a disciple to see the deeds of one´s “Si Gung (師公)”. However, with the dynamism of current times, Lineages with more than two generations in full activity, become increasingly common. And these different relational levels end up becoming challenges of the modern world, for those who safeguard a Chinese Martial System like Ving Tsun.
[Celebração do aniversário de 50 anos de idade do “Si Gung (師公)”, 2013]
[Celebration of the 50th birthday of “Si Gung (師公)”, 2013]

Desde aquele dia 25 de Outubro de 1999, muita coisa aconteceu... “Si Gung (師公)” já não porta mais um semblante sério e pesado quando caminha. Ele também se tornou mais acessível, inclusive com pessoas que são de fora de nossa instituição, através de seu canal KUNG FU LIFE
“Si Gung (師公)” hoje acredita muito mais que existem pessoas ao redor do Brasil não só interessadas, mas dispostas a entenderem um sentido amplo do que chamamos de Kung Fu. 
A minha Família Kung Fu[apenas por ter sido a primeira de décima segunda geração] inaugurou uma nova geração de discípulos oriundos do trabalho do “Si Gung (師公)” no Brasil. Estas pessoas são membros de décima terceira geração. E isso, faz com que a salvaguarda do Sistema Ving Tsun seja de certa forma um fardo possível, apenas para “aqueles que tem estomago”. Como diz o meu “Si Gung (師公)” Leo Imamura. 

Since that day October 25, 1999, a lot has happened... “Si Gung (師公)” no longer bears a serious and heavy face when he walks. He has also become more accessible, including with people outside our institution, through his KUNG FU LIFE channel.
“Si Gung (師公)” today believes much more that there are people around Brazil not only interested, but willing to understand a broad sense of what we call Kung Fu.
My Kung Fu Family [just because it was the first of the twelfth generation ] inaugurated a new generation of disciples coming from the work of “Si Gung (師公)” in Brazil. These people are thirteenth generation members. And that makes safeguarding the Ving Tsun System somewhat of a possible burden, only for "those with a stomach." As my “Si Gung (師公)” Leo Imamura says.




The Disciple of Master Julio Camacho
Thiago Pereira “Moy Fat Lei”
moyfatlei.myvt@gmail.com


sábado, 7 de agosto de 2021

Has your Master[Si Fu 師父] already died?

 

Graças as redes sociais e o fácil acesso a filmes chineses nas últimas duas décadas. Se tornou possível  que o grande público tivesse contato com um termo não tão conhecido até a primeira metade dos anos 2000: “Si Fu[師父]”. Outros, por conta do filme “Kung Fu Panda”[Dreamworks, 2008], conheceram o termo por sua pronúncia em mandarim: “Shī Fu[师父]”. Que além de ter uma pronúncia diferente, o primeiro ideograma que em cantonês se diz “Si[師]” em mandarim se torna “Shī [师]”. Ainda que o significado se mantenha o mesmo. 
Apesar do termo ter se popularizado para o grande público, para muitos expoentes ficou faltando uma atualização com relação ao que esse termo compreende. Pois como todo o nosso pensamento em termos de transmissão de um conhecimento, se baseia no que aprendemos na escola através da chamada “educação formal”. Por muitas vezes a figura do Si Fu [師父], que deveria promover o desconforto propício para o aprendizado, através do que chamamos em nossa Linhagem de Vida-Kung Fu. Se restringe ao papel de “dar aula”.

Thanks to social networks and easy access to Chinese movies over the past two decades. It became possible for the general public to have contact with a term not so well known until the first half of the 2000s in Brazil: “Si Fu[師父]”. Others, because of the movie “Kung Fu Panda”[Dreamworks, 2008], knew the term by its Mandarin pronunciation: “Shī Fu[师父]”. That in addition to having a different pronunciation, the first ideogram that in Cantonese says “Si[師]” in Mandarin becomes “Shī [师]”. Although the meaning remains the same.
Although the term has become popular for the general public, for many exponents, an update regarding what this term comprises was lacking. Because like all our thinking in terms of the transmission of knowledge, it is based on what we learn at westerns schools through the so-called “formal education”. For many times the figure of Si Fu [師父], which should promote the discomfort conducive to learning, through what we call in our Lineage asKung Fu Life. Is restricted to the role of “teaching”.

O termo “Si Fu[師父]” é composto de dois ideogramas e seus radicais: Acredita-se que o radical [𠂤] esteja relacionado a ideia de um monte ou colina. Já o outro que fica a seu lado [帀], refere-se a rodear ou estar por perto. Então, dizem que soldados agrupavam-se próximos a colinas, mas o estudo etimológico deste ideograma Si[師] de “Si Fu[師父]”, ainda é muito debatido. De toda maneira, no caso deste ideograma, o radical [𠂤] sugere o significado enquanto o  [帀] sugere o som. 
Todos os dicionários, sugerem que o significado do ideograma Si[師] de “Si Fu[師父]” significa Mestre, especialista ou até mesmo professor. Importante porém, entendermos que existe o significado do dicionário e o que seu “Si Fu[師父]” apresenta a você. Além disso, um termo como esse, não deveria ser traduzido ao pé da letra separadamente, mas talvez entendido em sua essência. 

The term “Si Fu[師父]” is composed of two ideograms and their stems: The stem [𠂤] is believed to be related to the idea of a mound or hill. The other one next to it [帀], refers to surrounding or being close. So, it is said that soldiers clustered close to hills, but the etymological study of this Si[師] ideogram of “Si Fu[師父]” is still much debated. Anyway, in the case of this ideogram, the stem [𠂤] suggests the meaning while the [帀] suggests the sound.
All dictionaries suggest that the meaning of the Si[師] ideogram of “Si Fu[師父]” means Master, specialist or even teacher. Importantly, however, we understand that there is the meaning of the dictionary and what your “Si Fu[師父]” presents to you. Furthermore, such a term should not be literally translated separately, but perhaps understood in its essence.

O segundo ideograma de “Si Fu[師父]” é o Fu[父], que significa “pai”. E quando entendemos que o ideograma Fu[父] pode apresentar a possibilidade de uma pessoa de pé, com os braços abertos para o alto e segurando duas armas. Talvez possamos entender a ideia de Fu[父] enquanto alguém que “protege”. Protege o Sistema Ving Tsun, protege o processo de transmissão de si mesmo e do praticante [ou seja: De suas ansiedades e desejos], e também protege o praticante dele mesmo. 

The second ideogram of “Si Fu[師父]” is Fu[父], which means “father”. And when we understand that the Fu[父] ideogram can present the possibility of a person standing with arms outstretched and holding two weapons. Perhaps we can understand the idea of Fu[父] as someone who “protects”. He protects the Ving Tsun System, protects the transmission process from himself and the practitioner [ie: From their anxieties and desires], and also protects the practitioners from themselves.
Acontece que essa chamada “Experiência Mobilizadora”, precisa contar com a disponibilidade do discípulo para com o seu Si Fu[師父]. Portanto, muitas vezes quando estamos no início de nossa jornada e não compreendemos o que está por detrás de uma experiência proposta pelo Si Fu[師父], tendemos a nos desconectar dela por conta do desconforto que nos causa. Acontece que, segundo meu próprio Si Fu[師父] : “O processo de desconforto é parte do aprendizado”. - Além disso, esse “desconforto”, pode ocorrer inclusive para discípulos que estão na jornada do Ving Tsun já por tempo considerável. Sendo que neste caso, por terem mais autonomia, tendem a se fechar para o aprendizado de forma mais elaborada.

It so happens that this so-called “Mobilizing Experience” needs to rely on the disciple's availability for his Si Fu[師父]. Therefore, many times when we are at the beginning of our journey and we do not understand what is behind an experience proposed by our Si Fu[師父], we tend to disconnect from him because of the discomfort it causes us. It turns out that, according to my own Si Fu[師父]: “The process of discomfort is part of learning”. - In addition, this "discomfort" can occur even for disciples who have been on the Ving Tsun journey for a considerable time. In this case, because they have more autonomy, they tend to close themselves to this learning process in a more elaborate way.


 Para este “Dia do pais”, cabe a singela reflexão a despeito de termos e processos etimológicos dos ideogramas: Se o Si Fu[師父] é uma pessoa que você elegeu para seguir para sempre a partir da Cerimonia de Discipulado [Baai Si], o seu Si Fu[師父] já morreu? Caso ele tenha morrido, você invoca sua memória com tal força que é como se ele estivesse vivo? Porém, caso o seu Si Fu[師父] esteja vivo. Você está conectado com ele no dia a dia, fazendo com que essa vida tenha sentido, ou o processo de aprendizagem é tão desconfortável que você o trata como se tivesse morrido?
O tempo passa rápido. E é preciso que tenhamos sempre ética com o tempo que alguém nos oferta.

For this “Father's Day”, a simple reflection is in order, despite the etymological terms and processes of the ideograms: If Si Fu[師父] is a person you chose to follow forever from the Discipleship Ceremony [Baai Si], is your Si Fu[師父] already dead? If he has already passed, do you summon his memory with such force that it is as if he were alive? However, if your Si Fu[師父] is still alive. Are you connecting with him on a daily basis, making this life meaningful, or is the learning process so uncomfortable that you treat him as if he died?
Time passes quickly. And it is necessary that we always have ethics with the time that someone offers us.



The Disciple of Master Julio Camacho
Thiago Pereira “Moy Fat Lei”
moyfatlei.myvt@gmail.com