[Mestres Julio Camacho e Ricardo Queiroz respondem perguntas dos presentes]
[Masters Julio Camacho and Ricardo Queiroz answering questions from the audience]
[Mestres Julio Camacho e Ricardo Queiroz respondem perguntas dos presentes]
[Masters Julio Camacho and Ricardo Queiroz answering questions from the audience]
Rio de Janeiro, 20 anos atrás...
Quando tinha dezesseis anos, eu frequentava o Mo Gun usando minha bicicleta preta. Meu amigo Rafael Azevedo havia me dado um Discman de presente, e eu colocava ele na minha mochila. O desafio era correr com a bicicleta o máximo que pudesse, sem deixar a música pular. Eu tinha alguns CD´s de trilhas sonoras de Animes que comprava em eventos, e ouvia enquanto corria com ela saindo do bairro do Pechincha até o Tanque, onde o Mo Gun ficava. Acontece que toda aquela adrenalina se esvaia assim que a prática começava. Eu simplesmente havia “resistido bravamente” ao “Siu Nim Tau” e agora lá estava eu fazendo o “Cham Kiu”. Eu achava tudo muito parado, não entendia o Chi Sau, ninguém me dizia muita coisa, as práticas eram quase que em silencio. Finalmente, Si Fu colocou uma caixa de sugestões na entrada do Mo Gun - “Precisa ter mais luta”- Foi o que eu escrevi. Mais tarde, descobri que a única sugestão havia sido a minha, e por conta da minha letra de criança, fui rapidamente descoberto. Eu então comecei a faltar por dois meses. Literalmente, eu chegava até a porta do Mo Gun com minha bicicleta preta e discman, olhava... Pensava...E ia embora... Minha mãe então perdeu a paciência e já não queria mais pagar a mensalidade. Si Suk Ursula marcou uma reunião com ela, eu e o Si Fu. Si Fu preocupava-se apenas com uma coisa: “Você ainda tem interesse em praticar?”- Ele me perguntou olhando diretamente em meus olhos, basicamente ignorando minha mãe. Eu disse que sim, mas não sabia como a experiência poderia ser diferente de antes. É que eu mal sabia, que um homem mudaria minha trajetória a partir dali...Rio de Janeiro, 20 years ago...
When I was sixteen years old, I used to go to Mo Gun on my black bike. My friend Rafael Azevedo had given me a Discman as a gift, and I put it in my backpack. The challenge was to ride the bike as much as possible without letting the music jump. I had some CDs of Anime soundtracks that I bought at events, and I listened to them as I ride the bike from the Pechincha neighborhood to the Tanque, where Mo Gun was located. It turns out that all that adrenaline drains as soon as the practice begins. I had simply "bravely resisted" the "Siu Nim Tau" and now here I was doing "Cham Kiu". I thought everything was very still, I didn't understand Chi Sau, nobody told me much, the practices were almost silent. Finally, Si Fu put a suggestion box at Mo Gun's entrance - "We need to have more combat practices" - That's what I wrote. Later, I found out that the only suggestion was mine, and because of my childish handwriting, I was quickly discovered. I then started skipping classes for two months. Literally, I would come to the door of Mo Gun with my black bike and discman, look the stairs... I would think... And leave... My mother then lost patience and no longer wanted to pay the monthly fee. Si Suk Ursula arranged a meeting with her, me and Si Fu. Si Fu was only concerned with one thing: "Are you still interested in practicing?"- He asked me looking directly into my eyes, basically ignoring my mother. I said yes, but I didn't know how the experience could be any different from before. It's just that I barely knew, that a man would change my trajectory from there...
Rio de Janeiro, dias de hoje.
Alguns anos atrás voltei para casa com a frase que meu Si Fu acabara de me dizer: “A vida pode ser leve, Pereira”. - Aquela frase veio em um momento onde era impossível acreditar em leveza, com tudo o que estava se passando. Era o final de 2017, e muitas coisas não iam bem. Acontece que poucos meses atrás, conversando com meu irmão Kung Fu Carlos Antunes. Pude ouvir dele [num linguajar mais íntimo devido a nossa relação], sobre um determinado assunto que eu trouxera para a conversa :“Si Hing, eu posso não ser bom com as facas na mão, mas uma coisa eu sei fazer com relação a vida:' Eu corto logo, meu irmão! Eu não arrasto essas correntes igual você não, eu corto logo! Uma 'parada' que você não vai me ver, é arrastando corrente. Isso eu entendi do 'Do' !' ” - Ao ouvir aquilo, lembrei-me da fala do Si Fu. Percebi que “seguir junto” é algo bem profundo. Você pode estar seguindo junto de alguém, mas não totalmente. Pois lá estava eu, anos depois, ainda sem conseguir deixar “a vida leve”. E meu irmão Kung Fu mais novo, que usualmente brinca com sua dita [por ele mesmo] falta de habilidade. Com mais uma atitude completamente sintonizada com a de nosso Si Fu, ainda que nunca tivesse escutado a frase que eu ouvi, mas que por uma outra via, chegara a mesma conclusão.
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As Si Fu spoke that night at different times, he smiled a few times as he looked at the clothes he was wearing. His blouse with rolled-up sleeves and jeans are his trademark. And I was happy to see him dressed like that up close again. It turns out that at times I could see the scar from his recent surgery on his chest. A line lighter than his skin that cuts his chest vertically, showed as he moved and fidgeted excitedly, while telling a story, making some etymological note, or getting someone to reflect on their own words. And seeing that line of his scar, I thought briefly of how a 22-year story could suddenly end. And even though I know that Si Fu is not very fond of metaphysical beliefs, I who am quite a lot, I kept thinking about everything that had happened. As if the simple decision to move to the US, allowed him to take care of his health when he needed it most with all that was best. In addition to allowing his daughters and wife, they could be vaccinated months earlier than other people in Brazil. - "It was always lucky!" - Si Fu himself said.