Na segunda parte do artigo sobre o evento realizado no Moy Yat Institute, gostaria de abordar algo que talvez pouca gente fora do Brasil conheça: uma das razões pelas quais São Paulo se tornou, e permanece até hoje, uma potência no universo das artes marciais.
A forte tradição marcial de São Paulo está profundamente relacionada aos movimentos migratórios que, desde o início do século 20, transformaram o estado em um dos principais pontos de encontro entre culturas orientais e ocidentais no Brasil. A imigração japonesa, intensificada a partir de 1908, estabeleceu algumas das bases para a difusão sistemática de modalidades como Judo, Kendo, Karate e, posteriormente, Aikido.
Nas décadas seguintes, a presença de imigrantes chineses, especialmente no período posterior à Segunda Guerra Mundial, contribuiu para a introdução e a expansão de diferentes sistemas de artes marciais chinesas, que, em um primeiro momento, passaram a ser genericamente conhecidos no Brasil apenas como “Kung Fu”. A comunidade coreana, por sua vez, consolidada sobretudo a partir da década de 1960, teve papel importante na difusão do Taekwondo e de outras expressões marciais de sua cultura.
Mais do que simplesmente introduzir técnicas de combate, essas comunidades estabeleceram escolas, associações e relações de transmissão entre gerações, criando as condições para que São Paulo se tornasse um importante centro de preservação, intercâmbio e desenvolvimento das artes marciais asiáticas no Brasil.
In the second part of my article about the event held at the Moy Yat Institute, I would like to explore something that perhaps few people outside Brazil are aware of: one of the reasons why São Paulo became, and remains to this day, a major centre of martial arts.
São Paulo's strong martial arts tradition is deeply connected to the waves of immigration that, since the beginning of the 20th century, have transformed the state into one of Brazil's most significant meeting points between Eastern and Western cultures. Japanese immigration, which intensified from 1908 onwards, laid some of the foundations for the systematic spread of disciplines such as Judo, Kendo, Karate and, later, Aikido.
In the decades that followed, the arrival of Chinese immigrants, particularly in the period after the Second World War, contributed to the introduction and expansion of various Chinese martial arts systems which, initially, became known collectively in Brazil simply as ‘Kung Fu’. The Korean community, meanwhile, which became firmly established particularly from the 1960s onwards, played an important role in spreading Taekwondo and other martial traditions rooted in Korean culture.
Beyond simply introducing fighting techniques, these communities established schools, associations and relationships of transmission across generations, creating the conditions for São Paulo to become an important centre for the preservation, exchange and development of Asian martial arts in Brazil.
Por isso, tivemos a oportunidade de receber, em uma mesma ocasião, figuras distintas do universo das artes marciais no estado de São Paulo, que personificam essa história, como o Grão-Mestre Marcos Hourneaux (à esquerda na foto) e o Sensei Ricardo Leite (à direita). Natural de Santo André, São Paulo, o Grão-Mestre Marcos Hourneaux, que esteve presente acompanhado de seu filho, Si Fu Ulisses, é uma figura historicamente importante para o desenvolvimento das artes marciais chinesas no Brasil. Iniciou seus estudos por volta dos seis anos de idade, sob a orientação direta do Mestre Chiu Ping Lok, conhecido carinhosamente como Mestre Lope, um dos pioneiros do ensino de Kung Fu no país. Sua trajetória está diretamente ligada aos primeiros anos de transmissão das artes marciais chinesas a praticantes brasileiros.
Já o Sensei Ricardo Leite é alguém com quem, ao longo dos últimos quatro anos, tenho tido a oportunidade privilegiada de conviver em diversas ocasiões. A cada nova visita do Grão-Mestre Leo Imamura a São Paulo, faz questão de estar presente no Instituto, proporcionando encontros que considero especialmente valiosos. Para além de sua inquestionável qualificação como sétimo dan de Aikido, Sensei Ricardo é alguém que demonstra profundo apreço por tudo aquilo que é compartilhado. É um estudioso atento aos detalhes de sua arte, alguém que dedica sua vida a um Aikido que não se satisfaz com respostas prontas, mas que procura, em cada gesto, legitimidade, profundidade e comprometimento.
This is why we had the opportunity to welcome, on the same occasion, distinguished figures from São Paulo's martial arts community who embody this history, such as Grandmaster Marcos Hourneaux (pictured on the left) and Sensei Ricardo Leite (on the right). Originally from Santo André, São Paulo, Grandmaster Marcos Hourneaux, who attended accompanied by his son, Si Fu Ulisses, is a historically significant figure in the development of chinese martial arts in Brazil. He began his studies at around six years of age, under the direct guidance of the chinese Master Chiu Ping Lok, affectionately known as Master Lope, one of the pioneers of Kung Fu instruction in the country. His journey is closely connected to the earliest years of the transmission of Chinese martial arts to Brazilian practitioners.
Sensei Ricardo Leite, meanwhile, is someone with whom I have had the privilege of spending time on numerous occasions over the past four years. Whenever Grandmaster Leo Imamura visits São Paulo, he makes a point of coming to the Institute, creating opportunities for encounters that I find particularly meaningful. Beyond his unquestionable qualifications as a seventh-dan Aikido practitioner, Sensei Ricardo is someone who demonstrates a profound appreciation for everything that is shared with him. He is a dedicated student of the finer details of his art, someone who has devoted his life to an approach to Aikido that does not settle for ready-made answers, but instead seeks authenticity, depth and commitment in every movement.
Outro profissional que nos prestigiou com sua presença, pela segunda vez em um evento desta natureza promovido pelo Instituto, foi Si Fu Eddie Freire (na foto acima, ao lado do Grão-Mestre Leo Imamura). Discípulo de outro importante pioneiro das artes marciais chinesas no Brasil, o saudoso Grão-Mestre Li Hon Ki, Si Fu Eddie dá continuidade à linhagem de Ving Tsun transmitida por seu mestre, desenvolvendo seu trabalho na cidade de São Paulo.
Na ocasião, assim como em sua primeira visita, esteve acompanhado de um de seus discípulos. Desta vez, tivemos também a honra de receber sua esposa.Essa participação demonstra não apenas seu interesse pelas atividades promovidas pelo Instituto, mas também a disposição de compartilhar essas experiências com pessoas próximas de sua vida familiar e marcial.
Para mim, tem sido uma oportunidade singular conviver e estabelecer relações com profissionais como Si Fu Eddie, através do Instituto.
Another martial arts professional who honoured us with his presence, for the second time at an event of this nature organised by the Institute, was Si Fu Eddie Freire (pictured above alongside Grandmaster Leo Imamura). A disciple of another important pioneer of Chinese martial arts in Brazil, the late Grandmaster Li Hon Ki, Si Fu Eddie continues the Ving Tsun lineage transmitted by his master, carrying on his teaching activities in the city of São Paulo.
On this occasion, as during his first visit, he was accompanied by one of his disciples. This time, we also had the honour of welcoming his wife. Their presence reflects not only his interest in the activities promoted by the Institute, but also his willingness to share these experiences with those who are part of his family and martial arts life.
For me, having the opportunity to spend time with and build relationships with professionals such as Si Fu Eddie, through the Institute, has been a particularly meaningful experience.
Os dois convidados acima também representavam algo muito especial: expoentes de momentos distintos da história das artes marciais no Brasil, mas unidos por um interesse genuíno na preservação das tradições que representam. À esquerda, temos o Sensei Pedro, que esteve presente acompanhado de um amigo. Conselheiro da diretoria da Associação Ken In Kan Gojū-Ryu de Karate-Dō e bacharel em Educação Física, atualmente desenvolve sua pesquisa de doutorado no campo das artes marciais na Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (EEFE-USP). Sabemos da importância de reapresentar as artes marciais à sociedade contemporânea e de como o meio acadêmico constitui um espaço privilegiado para promover sua valorização, ampliar sua compreensão e reconhecer sua relevância cultural e educacional.
Já Si Fu Sidcley iniciou sua trajetória nas artes marciais no começo da década de 1980 e acompanhou, desde então, o amadurecimento do cenário marcial no estado do Rio de Janeiro. Ao longo dessas décadas, tornou-se uma figura muito querida e respeitada por aqueles que tiveram a oportunidade de compartilhar sua jornada. Sua presença no encontro trouxe consigo não apenas a experiência acumulada ao longo de tantos anos, mas também a continuidade de um compromisso com a prática, o ensino e as relações construídas por intermédio das artes marciais.
Ver os dois de pé naquele momento levou a uma reflexão sobre as diferentes maneiras pelas quais cada um de nós pode contribuir para a promoção e a preservação das artes marciais no Brasil. Seja por meio da investigação acadêmica, da transmissão entre gerações ou da dedicação cotidiana à prática, existem caminhos distintos para uma mesma responsabilidade. Talvez um dos maiores desafios seja justamente conservar, ao longo das décadas, o mesmo entusiasmo e a mesma disposição para aprender que nos motivaram no início. Nesse sentido, a trajetória de Si Fu Sidcley constitui um exemplo especialmente inspirador de perseverança e compromisso com uma vida dedicada às artes marciais.
The two guests pictured above also represented something particularly special: distinguished figures from different periods in the history of martial arts in Brazil, yet united by a genuine interest in preserving the traditions they represent. On the left is Sensei Pedro, who attended accompanied by a friend. A member of the Board of Advisers of the Ken In Kan Gojū-Ryu Karate-Dō Association and a graduate in Physical Education, he is currently undertaking doctoral research in the field of martial arts at the School of Physical Education and Sport of the University of São Paulo (EEFE-USP). We recognise the importance of reintroducing martial arts to contemporary society and the significant role that academic world can play in promoting their appreciation, broadening our understanding of them and recognising their cultural and educational relevance.
Si Fu Sidcley, meanwhile, began his martial arts journey in the early 1980s and has witnessed the development and maturation of the martial arts community in the state of Rio de Janeiro ever since. Over the decades, he has become a much-loved and highly respected figure among those who have had the opportunity to share in his journey. His presence at the gathering brought not only the experience accumulated over so many years, but also the continuity of a commitment to practice, teaching and the relationships developed through martial arts.
Seeing them both standing there at that moment prompted me to reflect on the different ways in which each of us can contribute to the promotion and preservation of martial arts in Brazil. Whether through academic research, transmission across generations or daily dedication to practice, there are different paths towards fulfilling a shared responsibility. Perhaps one of our greatest challenges is to maintain, throughout the decades, the same enthusiasm and eagerness to learn that first inspired us to begin. In this respect, Si Fu Sidcley's journey stands as a particularly inspiring example of perseverance and lifelong commitment to martial arts.
Outros expoentes que estiveram presentes na ocasião foram Shifu Luis Mello, Si Fu Márcio Fogolin e Si Fu Peterson Menezes, três profissionais bastante conhecidos no cenário das artes marciais chinesas no Brasil. Shifu Luis Mello, em particular, vem desenvolvendo um trabalho consistente de divulgação e promoção não apenas das artes marciais chinesas, mas também de diferentes aspectos da cultura tradicional chinesa, por meio do Templo Lohan, situado no bairro da Liberdade, em São Paulo. Sua atuação demonstra a importância de compreender as artes marciais para além de suas dimensões técnicas, reconhecendo também os valores culturais e filosóficos que acompanham sua transmissão.
Si Fu Márcio Fogolin, por sua vez, concilia sua dedicação às artes marciais com outras atividades profissionais, mas carrega consigo décadas de vivência no meio marcial, em uma trajetória compartilhada com seu irmão. Segundo suas próprias palavras, teve a oportunidade de participar de muitos dos acontecimentos que, ao longo dos últimos quarenta anos, contribuíram para definir o atual cenário das artes marciais em São Paulo. Sua experiência representa, portanto, uma ligação importante com diferentes períodos dessa história, permitindo compreender como as relações entre mestres, escolas e praticantes foram se desenvolvendo ao longo das gerações.
Por fim, Si Fu Peterson Menezes desenvolve um trabalho consolidado no interior de São Paulo e sempre demonstra grande solicitude diante dos convites para participar das atividades promovidas pelo Moy Yat Institute. Em cada oportunidade, faz questão de trazer seus discípulos, proporcionando a eles experiências que ultrapassam os limites de sua própria escola e evidenciando sua dedicação em oferecer as melhores oportunidades possíveis para sua formação. Nesta última visita, esteve acompanhado também de sua companheira e de alguns de seus alunos, que inclusive participaram do jantar de celebração realizado após o encontro.
Other distinguished figures who attended the gathering included Shifu Luis Mello, Si Fu Márcio Fogolin and Si Fu Peterson Menezes, three well-known professionals within Brazil's Chinese martial arts community. Shifu Luis Mello, in particular, has been carrying out consistent work in promoting and sharing not only Chinese martial arts, but also various aspects of traditional Chinese culture through the Lohan Temple, located in the japanese district of São Paulo. His work highlights the importance of understanding martial arts beyond their technical dimensions, whilst also recognising the cultural and philosophical values that accompany their transmission.
Si Fu Márcio Fogolin, meanwhile, balances his dedication to martial arts with other professional responsibilities, bringing with him decades of experience within the martial arts community, in a journey shared with his brother. In his own words, he has had the opportunity to take part in many of the events that, over the past forty years, have helped shape the martial arts landscape in São Paulo as we know it today. His experience therefore represents an important connection with different periods of this history, offering valuable insights into how relationships between masters, schools and practitioners have developed across generations.
Finally, Si Fu Peterson Menezes has established a longstanding teaching practice in the interior of São Paulo state and has always responded with great kindness and enthusiasm to invitations to attend activities organised by the Moy Yat Institute. On each occasion, he makes a point of bringing his disciples, providing them with experiences that extend beyond the boundaries of their own school and demonstrating his dedication to offering them the best possible opportunities for their development. During this latest visit, he was also accompanied by his partner and several of his students, who joined us for the celebratory dinner held after the gathering.
Por fim, contamos com a participação de dois representantes do Moy Yat Ving Tsun Safeguard Group, uma vez que tanto o Presidente do Instituto quanto eu estávamos diretamente envolvidos na organização do evento. A Mestra Cris Azevedo (à esquerda na foto) foi a única mulher a fazer uso do microfone naquela ocasião. Embora não costume destacar esse tipo de particularidade nesta página, acredito que, desta vez, seja importante fazê-lo. Afinal, nunca sabemos de que maneira as decisões que sustentamos ao longo de nossa trajetória podem, em determinado momento, nos colocar na posição de servir como exemplo para outras pessoas. Em um universo historicamente marcado pela predominância masculina, como o das artes marciais, a participação da Mestra Cristina em um encontro dessa importância ganha um significado que ultrapassa aquele momento. Sua presença, agora também registrada, poderá servir de inspiração para mulheres que iniciarão suas jornadas nas artes marciais nas próximas décadas.
À direita, temos o Mestre Sênior Geraldo Monnerat, que, salvo engano, iniciou sua trajetória nas artes marciais ainda em 1976 e hoje é um importante representante da Linhagem Moy Yat, com um trabalho consolidado na cidade de Niterói, no Rio de Janeiro. Mais conhecido como Si Fu Monnerat, promove mensalmente encontros entre seus discípulos e seu próprio Si Fu, o Grão-Mestre Leo Imamura, proporcionando a eles oportunidades privilegiadas de convivência, aprendizado e desenvolvimento ao longo de suas jornadas.
Naquela ocasião, Si Fu Monnerat também teve a gentileza de assumir a responsabilidade pelos registros fotográficos do encontro, contribuindo para a preservação da memória de um acontecimento tão significativo para todos os envolvidos.
Finally, we were joined by two representatives of the Moy Yat Ving Tsun Safeguard Group, as both the Institute's President and I were directly involved in organising the event. Master Cris Azevedo (pictured on the left) was the only woman to speak at the microphone on that occasion. Although I do not usually draw attention to such distinctions on this page, I believe that, this time, it is important to do so. After all, we can never know how the decisions we consistently uphold throughout our lives might, at some point, place us in a position to become an example to others. In a world historically characterised by male predominance, such as the martial arts, Master Cris's participation in a gathering of this significance carries a meaning that extends beyond the occasion itself. Her presence, now also preserved in the photographic record, may serve as an inspiration to women who will embark on their martial arts journeys in the decades to come.
On the right is Senior Master Geraldo Monnerat, who, if I am not mistaken, began his martial arts journey as early as 1976 and is today an important representative of the Moy Yat lineage, having established a longstanding teaching practice in the city of Niterói, Rio de Janeiro. Better known as Si Fu Monnerat, he arranges monthly meetings between his disciples and his own Si Fu, Grandmaster Leo Imamura, providing them with valuable opportunities for personal interaction, learning and development throughout their journeys.
On that occasion, Si Fu Monnerat also kindly took responsibility for photographing the gathering, helping to preserve the memory of an event of such significance to everyone involved.
Ao reunir profissionais de diferentes escolas, linhagens e gerações, o Moy Yat Institute reafirma seu compromisso com a valorização e a preservação das artes marciais. Sob a gestão do Presidente, Mestre Sênior Paulo Camiz, encontros como este demonstram a importância de criar oportunidades para o diálogo, a convivência e o fortalecimento de relações que ultrapassam os limites de cada tradição.
Espero que possamos continuar promovendo iniciativas dessa natureza, conscientes de que os encontros de hoje podem representar o início de histórias que serão lembradas pelas próximas gerações. A todos que estiveram conosco, meu sincero agradecimento por fazerem parte desse momento.
By bringing together professionals from different schools, lineages and generations, the Moy Yat Institute reaffirms its commitment to promoting and preserving the martial arts. Under the leadership of its President, Senior Master Paulo Camiz, gatherings such as this demonstrate the importance of creating opportunities for dialogue, meaningful interaction and the strengthening of relationships that extend beyond the boundaries of individual traditions.
I hope we can continue to promote initiatives of this kind, recognising that today's encounters may mark the beginning of stories that will be remembered by future generations. To everyone who joined us, I extend my sincere gratitude for being part of this occasion.
The preservation of a martial tradition depends not only on its history, but on the people who develop the competence, judgement and responsibility to keep it alive.
In The One Inch Punch, I explore how the Moy Yat Ving Tsun lineage offers a path from knowledge to capability, revealing why true mastery is not simply about what we can demonstrate, but what we are prepared to sustain and transmit.
The real challenge was never to strike from one inch away. It was to develop enough for one inch to be enough.
Discover The One Inch Punch, my e-book, available now.


.jpeg)



.png)
