terça-feira, 15 de setembro de 2026

What Is It Like to Have a Commando as a Ving Tsun Student? [ 教一名突击队员练咏春拳,是怎样一种体验? ]

(The day I gave to Marcelo a biography book of Bruce Lee)

Marcelo Alves, veterano do Exército Brasileiro e Comandos, possui uma trajetória construída em algumas das unidades e ambientes operacionais mais exigentes das Forças Armadas. Fez parte da tradicional Brigada de Infantaria Paraquedista.

Ao longo de sua carreira, realizou formações como Cabo Comandos, Combatente de Caatinga, Combatente de Montanha, estágio de adaptação ao ambiente de selva e mergulho. Serviu também junto à Companhia de Ações de Comandos e participou de operações em diferentes ambientes do território brasileiro. Sua experiência ultrapassou as fronteiras nacionais, incluindo a participação em operações de forças de paz no âmbito da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

Após sua trajetória militar, Marcelo consolidou também uma extensa experiência no setor de segurança privada, tornando-se uma importante referência na área.

Nossa convivência começou no início de 2024, mas sua relação como praticante do Programa Ving Tsun Experience tomou forma apenas em janeiro de 2025, a partir de uma singela sugestão do Grão-Mestre Leo Imamura.


Marcelo Alves, a veteran of the Brazilian Army and a Commando, has built a career within some of the most demanding units and operational environments of the Armed Forces. He served with the renowned Parachute Infantry Brigade.

Throughout his military career, he completed training as a Commando Corporal, Caatinga Combatant and Mountain Combatant, as well as courses in jungle environment adaptation and diving. He also served with the Commando Actions Company and took part in operations across different environments throughout Brazilian territory. His experience extended beyond national borders, including participation in peacekeeping operations within the framework of the Community of Portuguese Language Countries.

Following his military career, Marcelo also developed extensive experience in the private security sector, becoming an important reference in the field.

Our association began in early 2024, but his journey as a practitioner of the Ving Tsun Experience Programme only truly took shape in January 2025, following a simple suggestion from Grandmaster Leo Imamura.

(Me and Marcelo after a class when he sahres about the Commando way o life)

Durante uma viagem de carro para o interior de Goiás, o Grão-Mestre Leo sinalizou de maneira enfática a ausência, em mim, de determinadas características que me habilitariam a transitar adequadamente pelo universo das Forças de Operações Especiais. A partir daquela observação, minha relação com Marcelo Alves passou a incluir também orientações de sua parte, com o propósito de me tornar minimamente apto a estar presente nesses ambientes. 

Essas conversas aconteciam geralmente enquanto tomávamos um espresso em uma cafeteria em um dos empreendimentos em que trabalha (FOTO). Nessas ocasiões, eu trazia dúvidas e Marcelo compartilhava não apenas explicações objetivas, como também histórias. Marcelo é um combatente extremamente vocacionado. "Você largaria tudo para fazer o Curso de Comandos desde o início novamente?" Marcelo sorriu como se a resposta fosse óbvia. 

A convivência com Marcelo e a ida a ambientes deste meio, assim como as entrevistas que ouvi e assisti, me fizeram repensar muito sobre a minha própria conduta. Essas pessoas têm total certeza de sua vocação e se orgulham dela. Cada gesto dessas pessoas expressa aquilo em que acreditam e traz muito do que viveram.

During a car journey to the countryside of Goiás state, Grandmaster Leo emphatically pointed out the absence, in me, of certain characteristics that would enable me to move appropriately within the world of Special Operations Forces. From that observation onwards, my relationship with Marcelo Alves also came to include guidance from him, with the purpose of making me at least minimally capable of being present in those environments.

These conversations would usually take place while we had an espresso at a café in one of the developments where he works (PHOTO). On those occasions, I would bring questions, and Marcelo would share not only objective explanations, but also stories. Marcelo is an extremely dedicated and deeply committed combatant. “Would you give everything up to take the Commando Course from the very beginning again?” Marcelo smiled as though the answer were obvious.

Spending time with Marcelo and visiting environments connected to this world, as well as the interviews I listened to and watched, made me reflect deeply on my own conduct. These people are completely certain of their vocation and take pride in it. Every gesture they make expresses what they believe in and carries something of what they have lived through.

(Marcelo Learning the first steps of Siu Nim Do form)

Certa vez, eu caminhava por um bairro da Zona Norte do Rio. O sol estava extremamente quente, e eu carregava uma mochila de trilha pesada com o equipamento do outro ramo em que trabalho. Era um serviço que só eu podia fazer, então precisei ir pessoalmente. Enquanto andava pela quente e desolada Avenida Dom Hélder Câmara, na altura do bairro da Piedade, ouvia um trecho de uma entrevista do Marcelo em que ele descrevia, como se revivesse novamente o momento, em que, dentre dezenas de candidatos, era um dos únicos que havia sobrado para tentar se formar no Curso de Formação de COMANDOS. 

A maneira com a qual ele descreveu a honra que sentiu apenas por ter a oportunidade de tentar foi algo que me emocionou muito. 

Então tem esse F.E., o Ernesto Reis, que passei a acompanhar de uns anos para cá, e, recentemente, enquanto pintava um quarto e ouvia seu podcast, uma fala dele me chamou a atenção sobre conduta: "...Você acha que está tentando transmitir uma mensagem, quando, na verdade, está preocupado em não parecer burro, não criar um clima desconfortável e sair da conversa sendo visto como uma pessoa legal. Nesse momento, a mensagem se torna secundária. Ela passa a ser apenas um veículo para outra necessidade: a aprovação. Quem está ao redor percebe essa insegurança. Você dá sua opinião, ajusta no meio da fala e amacia no final para evitar o confronto. Isso não é firmeza. É busca por aprovação. Aprovação é emoção, e emoção não comanda a sala..."

On one occasion, I was walking through a neighbourhood in the North Zone of Rio. The sun was extremely hot, and I was carrying a heavy hiking backpack containing equipment from the other field in which I work. It was a job that only I could do, so I had to go there in person. As I walked along the hot and deserted  Dom Hélder Câmara Avenue, around the Piedade neighbourhood, I was listening to part of an interview with Marcelo in which he described, almost as if he were reliving the moment, how, out of dozens of candidates, he was one of the very few who had remained in an attempt to graduate from the COMANDOS Training Course.

The way he described the honour he felt simply in having the opportunity to try was something that moved me deeply.

Then there is this Special Force agent., Ernesto Reis, whom I have followed for the past few years, and recently, while painting a room and listening to his podcast, something he said about conduct caught my attention: “...You think you are trying to convey a message when, in fact, you are concerned about not looking stupid, not creating an uncomfortable atmosphere, and leaving the conversation being seen as a nice person. At that point, the message becomes secondary. It becomes merely a vehicle for another need: approval. The people around you notice that insecurity. You give your opinion, adjust it halfway through, and soften it at the end to avoid confrontation. That is not firmness. It is seeking approval. Approval is emotion, and emotion does not command the room...”

(Marcelo and I during Grandmaster Leo´s birthday in 2025)

Eu gosto muito de citações e expressões em outros idiomas, mas uma expressão no nosso português do Brasil que aprendi com o Marcelo é bem simples, mas fala muito sobre a maneira com que ele e outros Operadores de Forças de Operações Especiais enxergam não só a vida, como a si mesmos: "Nada mudou". 

Geralmente, essas pessoas falam isso rindo ao final. 

Então, é como se houvesse um diálogo: uma das partes constata que existe uma situação difícil acontecendo, e a outra pessoa apenas diz, rindo: "Nada mudou". Então, eu interpreto isso como pessoas que nunca deixaram de viver o que aprenderam no curso e nas ações de operações especiais. Faz sentido dizer que um COMANDOS nunca deixa de ser um COMANDOS. Você pode ver isso no Marcelo, não apenas na sua conduta no dia a dia, na sua maneira de sentar, se mover, falar, perceber uma possibilidade de problema, na ética no trabalho e inclusive praticando. 

Marcelo nunca foi um especialista em segurança privada, ele é um Comandos especialista em segurança privada. Ele também nunca foi um praticante do Programa Ving Tsun Experience, ele é um Comandos praticando Ving Tsun Experience. Por isso, parecia ter uma aptidão inata, mas talvez fosse sua disciplina. 

Então, quando ouvi essa fala do Ernesto Reis em seu podcast sobre buscar aprovação, lembrei do Marcelo, lembrei da importância de saber quem somos, o que viemos buscar e de termos orgulho disso. Quando esquecemos, como ele mesmo diz sobre o seu meio: "A Caveira pune, Thiagão", diz ele falando sobre lideranças que falham, fazendo referência ao lendário símbolo dos COMANDOS.

I am very fond of quotations and expressions in other languages, but one expression in our Brazilian Portuguese that I learnt from Marcelo is very simple, yet says a great deal about the way he and other Special Operations Forces Operators see not only life, but also themselves: “Nothing has changed.”

They usually say this while laughing at the end.

So, it is as though there were a dialogue: one person acknowledges that a difficult situation is unfolding, and the other simply says, laughing: “Nothing has changed.” I interpret this as referring to people who never stopped living according to what they learnt during the course and through special operations. It makes sense to say that a COMANDO never stops being a COMANDO. You can see this in Marcelo, not only in his conduct in everyday life, but in the way he sits, moves, speaks, notices the possibility of a problem, in his work ethic, and even while practising.

Marcelo was never a private security specialist. He is a Commando who specialises in private security. Nor was he ever simply a practitioner of the Ving Tsun Experience Programme. He is a Commando practising Ving Tsun Experience. That is why he seemed to have an innate aptitude, although perhaps it was simply his discipline.

So, when I heard Ernesto Reis speaking on his podcast about seeking approval, I thought of Marcelo. I thought about the importance of knowing who we are, what we came to seek, and of taking pride in that. When we forget, as Marcelo himself says about his own world: “The Skull punishes, Thiagão*”, he says when speaking about leaders who fail, referring to the legendary symbol of the COMANDOS.

*"Thiagão" means "Big Thiago" in bazilian portuguese.


O que pude de verdade aprender com Marcelo para a minha própria jornada como profissional de artes marciais é que não é simplesmente o que Marcelo sabe. É aquilo que se tornou tão incorporado que aparece quando ele senta, anda, trabalha, pratica, percebe uma ameaça ou reage a uma dificuldade. Ele não precisa anunciar “sou Comandos” para que aquela formação esteja presente. 

Surge uma dificuldade. As circunstâncias mudaram. A pressão aumentou. O cenário ficou ruim. “Nada mudou.” Não porque, objetivamente, nada tenha mudado. Evidentemente, mudou. O que não mudou foi o referencial a partir do qual aquela pessoa responde à situação. É um COMANDOS respondendo à situação. 

 O Forças Especiais Ernesto Reis comenta naquele episódio de podcast: “Fale a frase e deixe ela se sustentar sozinha. Não busque aprovação”. Para fazer isso, você precisa saber quem você é. Assim como um COMANDOS sabe. Se “Nada mudou” representa a permanência do critério, “A Caveira pune”, como disse Marcelo, fazendo referência à perda de liderança, pode representar o momento em que a realidade denuncia a distância entre aquilo que alguém representa e aquilo que efetivamente consegue sustentar

Por isso, talvez, a frase do GM Leo Imamura no carro, ao final daquela conversa: “Acho que você, inclusive, vai aprender mais com ele do que ele com você”.

What I was truly able to learn from Marcelo for my own journey as a martial arts professional is that it is not simply about what Marcelo knows. It is what has become so deeply embodied that it appears in the way he sits, walks, works, practises, perceives a threat or reacts to a difficulty. He does not need to announce, “I am a Commando”, for that training to be present.

A difficulty arises. The circumstances have changed. The pressure has increased. The situation has become worse. “Nothing has changed.” Not because, objectively, nothing has changed. Obviously, it has. What has not changed is the frame of reference from which that person responds to the situation. It is a COMANDO responding to the situation.

Special Forces operator Ernesto Reis comments in that podcast episode: “Say the sentence and let it stand on its own. Do not seek approval.” To do that, you need to know who you are. Just as a COMANDO does. If “Nothing has changed” represents the permanence of the criterion, “The Skull punishes”, as Marcelo said in reference to the loss of leadership, may represent the moment when reality exposes the distance between what someone represents and what they are actually able to sustain.

Perhaps that is why GM Leo Imamura said, at the end of that conversation in the car: “I actually think you are going to learn more from him than he will from you.”